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    <title>Ela na Janela</title>
    <link>http://amaranta.tipos.com.br/</link>
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    <language>en-us</language>           
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      <title>Ela na Janela</title>
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    <item>
	<title><![CDATA[contorno bipolar]]></title>
	<link>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/08/14/contorno-bipolar</link>
	<guid>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/08/14/contorno-bipolar</guid>
	<description><![CDATA[
	tem dia dói.<br />
tem dia passa.<br />
<br />
tem dia dói.<br />
tem dia passa.<br />
<br />
tem dia dói.<br />
tem dia passa.<br />
<br />
<div style="text-align: center">*</div> <br />
<br />
ou sístole-diástole, como apelidou juliana.<br />
<br />
 
	<h3>leia também no <a href="http://www.tipos.com.br">tipos</a>:</h3>
	<ul><li><a href="http://fabiomartins.tipos.com.br/arquivo/2008/08/13/post-42703">Post 42703</a></li><li><a href="http://lielson.tipos.com.br/arquivo/2008/08/13/lavventura">L'avventura</a></li><li><a href="http://briguet.tipos.com.br/arquivo/2008/08/13/zona-olimpica">Zona olímpica</a></li></ul>
	]]></description>
	<category>Geral</category>
	<comments>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/08/14/contorno-bipolar</comments>
	<pubDate>Thu, 14 Aug 2008 01:20:30 -0300</pubDate>
</item><item>
	<title><![CDATA[da reportagem loca(l)]]></title>
	<link>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/08/07/da-reportagem-local</link>
	<guid>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/08/07/da-reportagem-local</guid>
	<description><![CDATA[
	<img src="http://www.tipos.com.br/media/16403/20080807-ju.jpg" width="500" height="332" alt="as duas moças" title="as duas moças" /><br />
<br />
as duas moças que atualizam as sinopses de cinema estão à procura de uma horta. plantarão o nada, o sem palavra, o cinema mudo. as duas moças que terminam de checar o horóscopo querem sementes de já, de não prever, de não amanhã. deixarão na terra mãos de borracha e ovos de poesia, sementes de quebrar palavra. silêncio amanhecido. tramam vôos, as duas moças que consertam as palavras cruzadas. (mas lembre-se: a asa está do lado de dentro) em setembro, poderão entregar buquês de silêncio aos noivos - o que busca o telhado perfeito e o que sonha um filme.<br />
as duas moças ainda têm a agenda da edição de sexta por fazer e sonham que não haja nada na cidade, que todos durmam e acordem forrados de mãos mudas de borracha. que durmam, como elas, as duas moças da reportagem local. elas querem chá de cebola para ruborizar o cabelo e a vera inventando um novo cachecol que será para evento nenhum da agenda da edição de sexta. elas esperam que a marinês ligue de madrugada, reclamando o son(h)o da filha caçula. as duas moças que fecham quatro páginas dormiriam cedo porque, nelas, so há o evento de uma horta de silêncios de manhã. bem de manhã.<br />
<br />
<br />
 
	<h3>leia também no <a href="http://www.tipos.com.br">tipos</a>:</h3>
	<ul><li><a href="http://marina.tipos.com.br/arquivo/2008/08/07/who-cares">Who cares?</a></li><li><a href="http://janavila.tipos.com.br/arquivo/2008/08/07/giovanni-allevi">Giovanni Allevi</a></li><li><a href="http://fermendonca.tipos.com.br/arquivo/2008/08/07/lindo">Lindo</a></li></ul>
	]]></description>
	<category>Geral</category>
	<comments>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/08/07/da-reportagem-local</comments>
	<pubDate>Thu, 7 Aug 2008 19:58:33 -0300</pubDate>
</item><item>
	<title><![CDATA[les amants]]></title>
	<link>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/07/23/les-amants</link>
	<guid>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/07/23/les-amants</guid>
	<description><![CDATA[
	<img src="http://www.tipos.com.br/media/16403/20080723-miguel angel rios2.jpg" width="380" height="242" alt="miguel angel rios" title="miguel angel rios" /><br />
antes de dormir, escolher músicas para um baile. <br />
:que baile? <br />
:ainda não inventei o onde, mas é um baile.<br />
você usará os sapatos guardados para as festas de formatura. eu terei um lenço que fará do ombro sua pista. as músicas do baile de não-sei serão as de dois pra lá, dois pra cá. as de a sua mão na cintura e os seus dentes acenando que, como os quadris, não foram feitos para bailes. (eu gosto de você não saber nada no baile.)<br />
:baile é de ser encontrado por sapatos.<br />
:seus dentes terão sapatos novos no baile. você vai sorrir uma dança inteira.<br />
:meus brincos e meu lenço terão sapatos também. <br />
:não terá tempo e cansaremos juntos do baile. deixaremos os pés na porta para subir na nuvem.<br />
:o onde do baile é no eu.<br />
:somos só nós dois pra lá, dois pra cá.<br />
:girar.<br />
<br />
<br />
 
	<h3>leia também no <a href="http://www.tipos.com.br">tipos</a>:</h3>
	<ul><li><a href="http://joao.tipos.com.br/arquivo/2008/07/23/para-o-lado-que-foi-a-vida">Para o lado que foi a vida...</a></li><li><a href="http://marina.tipos.com.br/arquivo/2008/07/22/bafometro">Bafômetro.</a></li><li><a href="http://briguet.tipos.com.br/arquivo/2008/07/22/adeus-cacilda">Adeus, Cacilda</a></li></ul>
	]]></description>
	<category>Geral</category>
	<comments>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/07/23/les-amants</comments>
	<pubDate>Wed, 23 Jul 2008 01:03:05 -0300</pubDate>
</item><item>
	<title><![CDATA[solzinho]]></title>
	<link>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/07/15/solzinho</link>
	<guid>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/07/15/solzinho</guid>
	<description><![CDATA[
	<img src="http://www.tipos.com.br/media/16403/20080715-cheio, vazio (1993), leonilson.jpg" width="322" height="365" alt="&quot;cheio, vazio&quot; (1993), leonilson" title="&quot;cheio, vazio&quot; (1993), leonilson" /><br />
<br />
viver é só.<br />
é um não sei de gastura no olho.<br />
 <div style="text-align: center"><br />
*</div><br />
o pai começou a carta assim: "estou velho". juntou no envelope duas fotos de ele na colheita de milho. chapéu e camisa linda-linda de suor escorrido. <br />
o pai desenha o sol nas camisas. <br />
outro dia, de sentado, o sol nasceu nas costas do xadrezinho de algodão. era um sol se pondo no pai.<br />
o chapéu é de justinho na cabeça porque, não, na cabeça não pode desenho de sol. é que dói e o pai acorda cedo de dar bom dia ao milharal: o pai não pode doer. nemnunca. o pai de "estou velho" acorda o sol.<br />
<br />
<div style="text-align: center">*</div> <br />
<br />
eu escondi o pensamentinho de a mãe à noite. escondi na fronha. o pensamentinho ganha uma lágrima por dia.<br />
eu teci um riozinho no pensamento de a mãe. ela nada no meu olho. <br />
 <div style="text-align: center"><br />
*</div><br />
tem outro pensamentinho escondido que é o de ela, a moça vestida de saudade bem floridinha. <br />
nem não pode pensar muito que é de silêncio no susto. nem não pode dar lágrima ao pensamentinho de ela.<br />
é penso de riacho.<br />
 <br />
<div style="text-align: center">*</div><br />
 <br />
viver é só.<br />
é um não sei de gastura no olho.<br />
<br />
<br />
<br />
 
	<h3>leia também no <a href="http://www.tipos.com.br">tipos</a>:</h3>
	<ul><li><a href="http://magro.tipos.com.br/arquivo/2008/07/15/magro-e-baixo-fique-menos-magro-e-mais-alto-oras">Magro e baixo, fique menos magro e mais alto! Oras!</a></li><li><a href="http://gisele.tipos.com.br/arquivo/2008/07/15/mini-ferias-again">:: mini férias again...</a></li><li><a href="http://zaratustra.tipos.com.br/arquivo/2008/07/15/domingo-13-de-julho">Domingo, 13 de Julho</a></li></ul>
	]]></description>
	<category>Geral</category>
	<comments>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/07/15/solzinho</comments>
	<pubDate>Tue, 15 Jul 2008 21:39:53 -0300</pubDate>
</item><item>
	<title><![CDATA[para catarina]]></title>
	<link>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/06/30/para-catarina</link>
	<guid>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/06/30/para-catarina</guid>
	<description><![CDATA[
	<img src="http://www.tipos.com.br/media/16403/20080630-enamorados laura belém.jpg" width="399" height="227" alt="enamorados - laura belém" title="enamorados - laura belém" /><br />
<br />
oh, sweet nuthin', por que é que inventamos tudo?<br />
<br />
<br />
<br />
<br />
 
	<h3>leia também no <a href="http://www.tipos.com.br">tipos</a>:</h3>
	<ul><li><a href="http://vaca.tipos.com.br/arquivo/2008/06/30/a-lei-seca-e-o-direito-de-ser-crapula">A Lei Seca e o direito de ser crápula</a></li><li><a href="http://mrita.tipos.com.br/arquivo/2008/06/30/desacato">Desacato</a></li><li><a href="http://ciencia.tipos.com.br/arquivo/2008/06/30/150-anos-da-teoria-de-darwin">150 anos da teoria de Darwin</a></li></ul>
	]]></description>
	<category>Geral</category>
	<comments>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/06/30/para-catarina</comments>
	<pubDate>Mon, 30 Jun 2008 22:26:55 -0300</pubDate>
</item><item>
	<title><![CDATA[de antes (2007)]]></title>
	<link>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/06/12/de-antes-2007</link>
	<guid>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/06/12/de-antes-2007</guid>
	<description><![CDATA[
	<img src="http://www.tipos.com.br/media/16403/20080612-20070612-chagall.jpeg" width="428" height="328" alt="chagall" title="chagall" /><br />
<br />
pensei assim: eu era floco de algodão, mas não de voar. eu era floco de algodão arrumadinho. você vinha, bagunçava tudo. daí eu era floco de voar. uma manhãzinha.<br />
<br />
<div style="text-align: center">*<br />
</div><br />
tinha um você no meu olho antes de dormir. demorou de ir embora. quando acordei, era porque fez rir o olho. foram três copos de água, banho quente, café na padaria e óculos de sol. mas você nem foi embora.<br />
<br />
<div style="text-align: center">*</div><br />
<br />
a amiga de unha vermelha disse que tinha brilho no meu olho. ela viu você deitado lá. eu gosto de saber que ela sabe. e que vai me dar a mão quando você levantar do meu olho e doer. ela sabe que meu olho vai fazer saudade.<br />
<br />
<div style="text-align: center">*</div><br />
<br />
tem dia dói. tem dia passa.<br />
<br />
<div style="text-align: center">*</div><br />
<br />
o que eu achei bem lindo foi você desenhando no ar. a mão separava um ventinho aqui, jogava um espaço vazio ali, rabiscava nada com o dedo e era um desenho. eu vi.<br />
<br />
<div style="text-align: center">*</div><br />
<br />
tem dia dá medo de nem começar. mas eu mostrei "coração - isto é, estes pormenores todos". emprestei um pormenor meu pra você. será que quando a gente empresta a outra pessoa pode nem não levar pra casa? eu queria que você me levasse um tantinho. a minha miudeza.<br />
<br />
<div style="text-align: center">*</div><br />
<br />
e se eu deitar no olho com você?<br />
<br />
<div style="text-align: center"><br />
***</div><br />
<br />
foi há um ano. agora, é de já nem não doer. <br />
tem dia eu vou, tem dia eu te beijo.<br />
<br />
<br />
 
	<h3>leia também no <a href="http://www.tipos.com.br">tipos</a>:</h3>
	<ul><li><a href="http://briguet.tipos.com.br/arquivo/2008/06/12/sin-city-dos-pobres-e-chico-cesar-detonou-o-curintia">Sin City dos pobres (e Chico César detonou o Curintia)</a></li><li><a href="http://vaca.tipos.com.br/arquivo/2008/06/12/vaca-profecias_2">Vaca Profecias</a></li><li><a href="http://wjcoelho.tipos.com.br/arquivo/2008/06/12/nao-para-nao-para-nao-para">Não pára! Não pára! Não pára!</a></li></ul>
	]]></description>
	<category>Geral</category>
	<comments>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/06/12/de-antes-2007</comments>
	<pubDate>Thu, 12 Jun 2008 15:07:09 -0300</pubDate>
</item><item>
	<title><![CDATA[dizer]]></title>
	<link>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/05/29/dizer</link>
	<guid>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/05/29/dizer</guid>
	<description><![CDATA[
	<img src="http://www.tipos.com.br/media/16403/20080529-scenerimage.asp.jpg" width="278" height="186" alt="&quot;cenas de um casamento&quot;, de bergman" title="&quot;cenas de um casamento&quot;, de bergman" /><br />
<br />
Foi uma tarde em que todos diziam: o amor, o amor, amor. Foi uma tarde de eu-abrigo. A moça branca de olhos azuis ligou e sentou-se no café para dizer; eu corri pela rua com a gérbera amarela para dizer; a de cabelos crespos estava apavorada e, há dias, fazia só dizer; o homem de passarinhos sentou ao meu lado esticando os braços sobre meu ombro para, aos meus olhos, dizer.<br />
<br />
<div style="text-align: center">*</div><br />
Ela esperava as flores de antes na estréia. Ele não apareceu. Na noite de estréia. Um segundo antes da cena, ela esperava. Os olhos azuis e a pele branca, chorou quando estava terminado o espetáculo. Ela nunca ficou sem as flores em noites de estréia. "Nunca, nunca", ela, chorando.<br />
Comprou um apartamento, tentou desmanchar o cachecol, pensou não ser mais nada e o carro, ah, o carro. Ela não olhou o farol. Ele a esperava do outro lado, pálido. "E se...", ele. E ela: "Eu disse não". E, então, não ganhou mais as flores em noites de estréia e precisa, agora, sentar-se nos cafés para, sozinha, dizer.<br />
<br />
<div style="text-align: center">*</div><br />
Eu entreguei a gérbera amarela. Não havia razão para embrulho. Beleza era de não repetir, de só a gérbera. Corri a rua e, no café, ficou a flor. Era doído de saber que o amor, o amor, o amor. Ela chorava. Eu, só quando contei das malas. Até a porta, as malas. "Era ter que dizer adeus ao contrário, entende?" Ela chorava. "Sim, era de ir embora para dentro." Ela chorava mais e dizia para eu não deixar o amor. "Você não", ela. Eu expliquei que não deixava, que, no "e se..." dele, eu respondia que sim. Mesmo sem esperar as flores em noites de estréia.<br />
Antes de levantar, era o caso de lembrar "o amor não se encomenda". Ela sorriu, desceu a rua. E eu lhe comprei lenços de papel. "Para os amores que nunca secam." Minha reverência à moça branca que dói.<br />
<br />
<div style="text-align: center">*</div><br />
A de cabelos crespos deu de ansiedade desde a primeira carta virtual. Teme não ser o sonho. E não será, eu explico - e ela sempre pergunta. Deu de ânsias. <br />
Não, não será o sonho porque o amor, o amor, o amor. <br />
É de repetir os olhos.<br />
<br />
<div style="text-align: center">*</div><br />
O homem de passarinhos arejou as roupas dela todos os dias. Os vestidos e os cabides em passeios pelo quintal de manhã. Ele a esperava. (O ar era sua reverência) <br />
Talvez ela não quisesse mais aqueles vestidos. Não voltou. <br />
No ano passado, ele vendeu a geladeira que ela deixou. Não ficou mais nada para os cabides. <br />
"Sem vestígios do amor", ele disse.<br />
É um homem de vento.<br />
<br />
<div style="text-align: center">*</div><br />
Desenhei mais duas flores, porque eu não podia mais dizer. Em breve, serão dez desenhos. Eu dei o nome de silêncios.<br />
<br />
  
	<h3>leia também no <a href="http://www.tipos.com.br">tipos</a>:</h3>
	<ul><li><a href="http://chuva.tipos.com.br/arquivo/2008/05/29/elaeeu">elaeeu</a></li><li><a href="http://lielson.tipos.com.br/arquivo/2008/05/29/mantendo-a-linha">Mantendo a linha</a></li><li><a href="http://grota.tipos.com.br/arquivo/2008/05/29/satori-no-cine-op-em-minas">satori no cine op, em minas</a></li></ul>
	]]></description>
	<category>Geral</category>
	<comments>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/05/29/dizer</comments>
	<pubDate>Thu, 29 May 2008 14:56:35 -0300</pubDate>
</item><item>
	<title><![CDATA[repetir]]></title>
	<link>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/05/26/repetir</link>
	<guid>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/05/26/repetir</guid>
	<description><![CDATA[
	<img src="http://www.tipos.com.br/media/16403/20080526-leonilson.jpeg" width="389" height="500" alt="leonilson" title="leonilson" /><br />
<br />
Às aflições sem nome, ao que eu não soube dizer ontem à noite, às franjas do tapete que deram nó na máquina de lavar, toda a solidão de linguagem. Minha ilha de mim. Ontem, eu precisei desenhar flores até doerem de muito os dedos, doerem de repetir até que cada flor fosse outra. Repetir a dor até que fosse outra. Para doerem dedos - ao menos saber dizer que a dor é nos dedos. Para significar as franjas do tapetes e saber dizer que, não, não houve quem estendesse os grampos e, então, foi bom sentir a ilha toda minha. Mas o conforto também dói. Como um alívio. É assim, eu te explicaria: encontrar abrigo de chuva, embora seja boa a chuva e o não ter abrigo. <br />
"Nada pode o olvido, contra o sem sentido apelo do não", eu lembro desde os 11 anos. Eu lembro de isso escrito atrás da porta e lembro de gritar, de dentro da minha ilha, na esperança de que alguém pudesse dar resposta: "Esquecer o quê? O quê? Qual é o nome do que eu esqueci?" Mas há o apelo do não. <br />
De manhã, havia apenas um feixe de sol na calçada e eu o deixei de presente às costas. Chegou a doer, pensei desmanchar o cachecol, mas fiz força para o não. Para sentir, como se pode sentir nos dedos a dor de muito do desenho das flores. Eu estava repetindo o sol. Pensei então que, de repetir meu grito, talvez alguém responda para dentro da minha ilha o que eu esqueci. O apelo do não, as franjas do tapete que deram nó na máquina, as coisas sem nome, tudo iria habitar um feixe de luz e poderia doer pelo que tem de claro, como os dedos depois dos desenhos.<br />
 <br />
<br />
<br />
   
	<h3>leia também no <a href="http://www.tipos.com.br">tipos</a>:</h3>
	<ul><li><a href="http://milana.tipos.com.br/arquivo/2008/05/26/12-anos-de-idade">12 anos de idade</a></li><li><a href="http://briguet.tipos.com.br/arquivo/2008/05/26/cidade-dos-mortos">Cidade dos mortos</a></li><li><a href="http://gabi.tipos.com.br/arquivo/2008/05/26/sao-paulo_4">são paulo</a></li></ul>
	]]></description>
	<category>Geral</category>
	<comments>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/05/26/repetir</comments>
	<pubDate>Mon, 26 May 2008 13:02:06 -0300</pubDate>
</item><item>
	<title><![CDATA[horizontal]]></title>
	<link>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/05/22/horizontal</link>
	<guid>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/05/22/horizontal</guid>
	<description><![CDATA[
	<img src="http://www.tipos.com.br/media/16403/20080522-schiele_liegende_1918.jpg" width="250" height="161" alt="schiele" title="schiele" /><br />
<br />
Eu queria que fosse de aprender. Então, você me estendia a mão, lá do meu olho, que é onde você mora, e a gente deitava junto, de ver o mundo na horizontal dos apaixonados. Você me ensinava que é de rir, só de rir, que o de chorar é quando a paixão fica forte e dói até no olho, mas que é dor de prazer, de feliz. Você me ensinava tudo, porque você já é aprendido mais de amor, da horizontal dos apaixonados. Eu deitei só um pouquinho e foi sempre do seu lado. Eu sou de aprender ainda. Você já deixa a cama prontinha nos olhinhos da gente. <br />
<br />
<div style="text-align: center">*</div><br />
Daí eu sentei no colchão e fiquei te olhando. Você abria a boca - devia ser de bonito o sonho - e quase era uma conversinha no meio do sono. Fazia uma preguiça longuinha e puxava o edredom para o lado, guardando todo o calor só pra você, dentro do seu abraço. Eu ficava de espiar, sentada no colchão. Você, dormindo, era bem meu. Daí você abriu o olho, engoliu saliva e disse, rapidinho-rasteirinho, eu-te-amo-linda-linda. Eu pensei: sonhou-eu, sonhou-eu! A gente gosta de ser um sonho no nada do apaixonado que dorme.<br />
<div style="text-align: center">*</div><br />
Quando deita no olho, é de não dar mais sono, o amormeu.<br />
<br />
<br />
<br />
 
	<h3>leia também no <a href="http://www.tipos.com.br">tipos</a>:</h3>
	<ul><li><a href="http://espiritodeporco.tipos.com.br/arquivo/2008/05/21/antes-de-explodir">Antes de explodir</a></li><li><a href="http://rocha.tipos.com.br/arquivo/2008/05/21/olha-so">Olha só</a></li><li><a href="http://james.tipos.com.br/arquivo/2008/05/21/pau-no-cu-da-economia-de-mercado">Pau no cu da economia de mercado</a></li></ul>
	]]></description>
	<category>Geral</category>
	<comments>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/05/22/horizontal</comments>
	<pubDate>Thu, 22 May 2008 14:27:10 -0300</pubDate>
</item><item>
	<title><![CDATA[de antes]]></title>
	<link>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/05/06/de-antes</link>
	<guid>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/05/06/de-antes</guid>
	<description><![CDATA[
	<img src="http://www.tipos.com.br/media/16403/20080506-leila reinert.jpg" width="400" height="259" alt="leila reinert" title="leila reinert" /><br />
<b>no casulo</b><br />
e, trinta anos depois, ela é encontrada.<br />
reencontrada.<br />
os cachos presos aos pés.<br />
ela não conseguiu sair de si mesma.<br />
<br />
<div style="text-align: center">*</div><br />
<br />
<b>morreu tanto que sumiu</b><br />
o amor?<br />
eu não vi.<br />
você viu?<br />
<br />
<div style="text-align: center">*</div><br />
<br />
<i>de 26 de agosto de 2007. de antes.</i><br />
<br />
<br />
 
	<h3>leia também no <a href="http://www.tipos.com.br">tipos</a>:</h3>
	<ul><li><a href="http://james.tipos.com.br/arquivo/2008/05/06/girias">Gírias</a></li><li><a href="http://marcela.tipos.com.br/arquivo/2008/05/06/e-a-boa">e a boa?</a></li><li><a href="http://bufonada.tipos.com.br/arquivo/2008/05/06/os-maravilhosos-dias">Os maravilhosos dias</a></li></ul>
	]]></description>
	<category>Geral</category>
	<comments>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/05/06/de-antes</comments>
	<pubDate>Tue, 6 May 2008 23:45:49 -0300</pubDate>
</item><item>
	<title><![CDATA[destinatário]]></title>
	<link>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/04/29/destinatario</link>
	<guid>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/04/29/destinatario</guid>
	<description><![CDATA[
	<img src="http://www.tipos.com.br/media/16403/20080429-eliana bordin 2007.jpg" width="334" height="425" alt="eliana bordin - sem título (2007)" title="eliana bordin - sem título (2007)" /><br />
<br />
quando ela acordou, ele já estava lá, enrolado no lençol de algodão branco. como espiasse de longe, ela descalçou os sapatos ainda na porta e deslizou para dentro. em silêncio. ele se virou. coçou o nariz. ela estava na ponta da cama. era como se nunca tivesse entrado naquele quarto antes. tirou uma a uma as pétalas que enfeitavam o cabelo e deixou-as sobre o móvel branco. em silêncio. não se pode acordar o destinatário das poesias. arrancou, enfim, a última das 18 pétalas. eram de uma gérbera que ela havia deixado no cabelo, parece, há alguns meses. apesar do tempo, eram ainda de vermelho-grito. <br />
soltou o cabelo, porque, pensou, já não precisava do penteado. olhou o corpo enrolado no lençol. examinou e sussurou para si mesma: destinatário, destinatário. então, como desatinasse, voltou a enfiar no cabelo cada pétala. arrematou com grampos, refez o penteado. desembrulhou duas borboletas azuis dos bolsos, colou quatro nuvens na parede, rodopiou até a vertigem de um apaixonado e, quando parou, ele ainda estava lá.<br />
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	<h3>leia também no <a href="http://www.tipos.com.br">tipos</a>:</h3>
	<ul><li><a href="http://mrita.tipos.com.br/arquivo/2008/04/29/logo-ali">Logo ali</a></li><li><a href="http://grota.tipos.com.br/arquivo/2008/04/29/kino-artemostracurtas">*kino/arte.mos(tr)a+cur{t|a@s</a></li><li><a href="http://espiritodeporco.tipos.com.br/arquivo/2008/04/29/longe">Longe</a></li></ul>
	]]></description>
	<category>Geral</category>
	<comments>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/04/29/destinatario</comments>
	<pubDate>Tue, 29 Apr 2008 14:43:24 -0300</pubDate>
</item><item>
	<title><![CDATA[confortável]]></title>
	<link>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/04/17/confortavel</link>
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	<description><![CDATA[
	<img src="http://www.tipos.com.br/media/16403/20080417-a19o6.jpg" width="380" height="253" alt="brigida baltar" title="brigida baltar" /><br />
<br />
Dos meus inventos, eu sou o que mais veste enfeites. Talvez por não ter conseguido me vencer. De menina, inventei que eu não podia tirar menos de 9. Não por nada, se não para ter mais uma invenção minha com que brincar. E nunca tirei menos de 9. Ganhei meu jogo. Não seria um tipo de morte? Como o desejo, que, em si, tem seu fim? Eu me ganhei nisso. Entramos num acordo, eu e meu invento, de que estava feito. Mais tarde, de já crescida, novo brinquedo: o de matar o amor. Era assim: a gente inventava que ele existia, botava flor, enfeite, vestido de fada, apostava corrida com outro amor, rodopiava de vento e esvaziava a história. De tudo, a gente guardava a flor, o tulezinho do saiote e a corrida que ninguém apostou. A mágica estava nisso. Ninguém apostou, não houve corrida. Era apenas em sonho e, por isso, mais precioso, feito duas flores feitas de crochê guardadas em um vidrinho com fios cintilantes. Inútil, amém. <br />
E de tanto inventar, desfiei um vestido todo de não saber o que é. Há ainda o vestido? Ou já existe apenas o desejo de um vestido, que, em si, morrerá tulezinho entrando na máquina de costura? A verdade do vestido não está em quando a gente imagina o tulezinho virando vestido? Porque depois ele já não é.<br />
Dos meus inventos, a aflição de viver é o que nunca vestiu nada. Não coube vestido nela, porque quis todos os vestidos. De criança, eu inventei um clube que era de reunir todo mundo que doía. E toda a gente do clube podia desenhar na parede, segurar giz de cera, pedir mais papel pra mãe e inventar que a gente toda outra que não era aflita podia ver de longe e enxergar que era tudo lindo lá dentro do clube. Não tinha ninguém, mas eu conversava o dia todo e a parede ficava linda, desenhinho de solidão. De já crescida, eu inventei de novo e, então, ficamos eu e ela, minha amiga, no clube. Ela enchia o chão de tulezinho que era pra sentar em sonho. Eu rabiscava e ela olhava de beleza que era nosso invento. Ficou sendo todo nosso. A gente botou aflição na gente que não doía e matou a anestesia. Dor de prazer, de vida, de todo mundo sangrando de ver o desenhinho de solidão. De manhã, a gente lavava o tulezinho. Era de sair tanto vermelho de sangue! Você deixava lindo, que era para o próximo aflito poder sentar confortavelzinho.<br />
Eu te inventei mais um jogo de lembrar todo invento. Pintava numa carta o coturninho, na outra também. Riscava aquela noite em que eu inventei a rasteira e, mais uma vez, riscava em outra carta. E, assim, você adivinhava o passado dos inventos. Feito quem abre a cortina, mas espia para o lado de trás da janela e vê só a luz entrando na mobília da casa. Era de ver tudo como fosse novo. Espanto, amém. Ainda te fiz um vidro com flor de crochê boiando em fio cintilante. Te vi segurar tudo com uma pinta na palma da mão e o cabelo de árvore escorrendo no rosto. Inventei você num riachinho, te pedi pra ouvir o medo de a mãe não amar mais e enchi cinco copos de água quando você deu de chorar de manhã. E te fiz invento pra não pedir nem nada. Porque era de ver você botar aflição na gente e de eu poder  esticar o bloquinho quando ficava pronta mais uma história. E toda história era depois que você tinha inventado os seres: um caranguejo maluco de coração comprido, um gigante de olho que trocava as cores, um moço que encantava violão e sabia fechar portas. Eu era toda sua aflição no bloquinho, de chorar quando você pedia mais papel pra mãe porque, não, por favor, a gente não quer sair daqui. <br />
De agora, de não ter mais idade, eu invento que já vivi. Na vida, eu era mágica e tinha uma amiga que enfeitava o chão de tulezinho para ver aflito escorrendo sangue. A amiga também era mágica e acordava com essa dor de ter inventado todo o resto e até a própria dor. De já não ter mais idade, de agora, ela morava num riacho e eu chorava de ver que era beleza aquilo tudo. <br />
A gente tinha inventado que viveu. Mas o tulezinho no chão, o tulezinho era verdade.<br />
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	<ul><li><a href="http://silfide.tipos.com.br/arquivo/2008/04/16/teatro-em-cena">Teatro em Cena</a></li><li><a href="http://tribunal.tipos.com.br/arquivo/2008/04/16/porque-hoje-eu-to-meio-assim-sei-la-entende">PORQUE HOJE EU TÔ MEIO ASSIM.. SEI LÁ, ENTENDE?</a></li><li><a href="http://marcela.tipos.com.br/arquivo/2008/04/16/da-serie-sobre-o-desejo-de-ser-italiana">Da série: Sobre o desejo de ser... italiana</a></li></ul>
	]]></description>
	<category>Geral</category>
	<comments>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/04/17/confortavel</comments>
	<pubDate>Thu, 17 Apr 2008 11:07:44 -0300</pubDate>
</item><item>
	<title><![CDATA[quina]]></title>
	<link>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/04/02/quina</link>
	<guid>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/04/02/quina</guid>
	<description><![CDATA[
	<img src="http://www.tipos.com.br/media/16403/20080402-juduas.jpg" width="248" height="177" alt="as duas" title="as duas" /><br />
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Minha amiga de alma Mileto,<br />
volto agora da avenida Paulista. A chuva parou depois de dois dias. Olhei para um prédio alto. Olhei bem para a quina lá em cima e pensei em auge. Tinha me reunido com Marcelino. Na mesa ao lado do chope, um casal de velhinhos comia batata frita. Não será este o auge? O auge é mínimo, não Mileto? Um cume, uma quina. Como bater o dedinho do pé no canto do móvel. A dor que é quase prazer por descobrir uma parte do corpo quase esquecida, inutilizada. Pra que escrever se o meu auge é você lendo? Se o meu auge é o riacho quando eu me descubro irreversivelmente apaixonada pela sua justeza, pelo que você empresta ao mundo, pelo que você encontrou dentro de mim? O meu auge é em você, num espaço mínimo de quina, cume, esquina. Preciso. Exato. (queria escrever tão rápido quanto meu pensamento, mas até chegar à  boca ou aos dedos algo se perde fatalmente) Não preciso e, por isso, tudo pode existir. Porque só o inútil existe, num canto, numa quina, numa esquina, num casal de velhinhos comendo batata frita, numa dupla de apaixonados cegos no trem do metrô. Eles descem na estação Paraíso. Eles pagam a conta da batata frita. O amor se encerra no mínimo. Nos R$ 15 da porção. Nos R$ 2,30 do bilhete do metrô. Nas costas das minhas mãos enxugando o amor por você que eu deixo escorrer num riacho. O amor é preciso, exato, contido, uma esquina. Onde ficam os tristes, os solitários, os que esperam o sinal abrir para atravessar na faixa. Preciso que você, e apenas você, me diga: é bom. Preciso apenas do seu traço de certo, do seu grifo de solidão cortando a minha. Preciso da perna da paixão que o seu traço corta. Preciso da sua quina, do seu dedo no fio do meu cabelo fino. Como a quina de um prédio alto, meu auge. Meu aplauso são seus olhos se fechando. E isso é alto, de cair e morrer de amor. <br />
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Sempre sua amiga, sempre minha amiga, Mileto, Tanato<br />
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	<h3>leia também no <a href="http://www.tipos.com.br">tipos</a>:</h3>
	<ul><li><a href="http://zero.tipos.com.br/arquivo/2008/04/02/como-vou">como vou</a></li><li><a href="http://briguet.tipos.com.br/arquivo/2008/04/01/viva-niva-viva-niva-viva-niva">Viva Niva! Viva Niva! Viva Niva!</a></li><li><a href="http://marina.tipos.com.br/arquivo/2008/04/01/frenesi-vai-a-pique">Frenesi vai a pique!</a></li></ul>
	]]></description>
	<category>Geral</category>
	<comments>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/04/02/quina</comments>
	<pubDate>Wed, 2 Apr 2008 01:43:59 -0300</pubDate>
</item><item>
	<title><![CDATA[alvenaria]]></title>
	<link>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/03/05/alvenaria</link>
	<guid>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/03/05/alvenaria</guid>
	<description><![CDATA[
	<img src="http://www.tipos.com.br/media/16403/20080305-vilma slomp 1997.jpg" width="190" height="192" alt="vilma slomp 1997" title="vilma slomp 1997" /><br />
<br />
Era uma solidão de linguagem. O pai, de barro. A mãe, alvenaria. Os dois cruzando os olhos enquanto ela engomava a gola da camisa. A mãe era de alvejar. O pai voltava sujo de terra. Sempre. Encontravam-se, na solidão de linguagem, quando ela estendia a camisa no varal, uma tristeza de alma. Os olhos de muito preto distantes, ele alcançava os grampos.<br />
Estavam presos num silêncio de não saber pronúncia. Tudo era silêncio, paisagem bem longe. De barro, de alvenaria. <br />
Então, eu sei que também estou lá. Estendo uma camisa alvejada no varal e apenas quero que me alcancem os grampos. Mas, mesmo para a solidão de linguagem, de não ter pronúncia, não há grampos, nem camisa para alvejar. Não há cuidado que não seja um novo disco para esperar que toda a roupa fique pronta, dobrada sobre a cama no dia seguinte. Não há pronúncia, nem mesmo a possibilidade de pronúncia. Não há, em mim, um de barro para a alvenaria. <br />
Assim, o pai carrega as sacolas do mercado quando chega. Abandona todas na porta de casa para que a mãe conduza tudo ao seu destino. As balas e os quadradinhos de doce de leite de que ele gosta na primeira porta do balcão de madeira da sala. O alvejante, a caminho da área de fora. O alvejante. Ela pode comprá-lo – e também as balas e os quadradinhos de doce de leite, que ele carrega até a porta de casa para que a mãe conduza tudo ao seu destino. Tudo sem palavra.<br />
Tenho balas em casa. Elas sobem comigo, nas minhas mãos. Não há quem as carregue para que eu possa exercer a mágica de apontar-lhe um destino que será desde muito tempo. Porque as balas do pai nunca saíram da primeira porta do balcão de madeira da sala. Mas não. Sem pronúncia, na solidão de linguagem, ainda não tenho fim para as balas, os quadradinhos de doce de leite. Tenho balas em casa, mas por solidão incompleta: a de linguagem, a de objeto. Não há porque dizer e não há sequer motivo para dizer, porque não há amor. Mesmo no pai, mesmo na mãe, mesmo naquilo que eles não souberam pronunciar, não há amor: há camisas para alvejar e grampos para que fiquem presas ao varal. Como são penduradas as horas e os sonhos até que, secos, sejam ilusões dobradas sobre a cama. <br />
Não há sequer o que se pendurar. A solidão de linguagem, a impronúncia, a ausência de verbo estendem os grampos para a distância de objeto, a falta de camisas e braços que, dentro delas, fiquem pintados de branco alvejado. <br />
Não tenho vestido a solidão de linguagem. Ela anda nua. Não posso dividir a impronúncia, as sacolas de balas, o silêncio. É como estar longe. De um longe repetido de muito. Onde não há nada e uma camisa alvejada no varal dói como um alívio.<br />
<br />
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	<h3>leia também no <a href="http://www.tipos.com.br">tipos</a>:</h3>
	<ul><li><a href="http://marina.tipos.com.br/arquivo/2008/03/05/lifes-like-a-box-of-chocolate">"Life's like a box of chocolate...</a></li><li><a href="http://lielson.tipos.com.br/arquivo/2008/03/05/sobre-filme-de-domingo">Sobre filme de domingo</a></li><li><a href="http://chuva.tipos.com.br/arquivo/2008/03/05/peca-rara">peça rara</a></li></ul>
	]]></description>
	<category>Geral</category>
	<comments>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/03/05/alvenaria</comments>
	<pubDate>Wed, 5 Mar 2008 21:37:00 -0300</pubDate>
</item><item>
	<title><![CDATA[um baile]]></title>
	<link>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/02/26/um-baile</link>
	<guid>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/02/26/um-baile</guid>
	<description><![CDATA[
	<img src="http://www.tipos.com.br/media/16403/20080226-porter_blueeyes.jpg" width="326" height="468" alt="liliana porter - &quot;blue eyes&quot;" title="liliana porter - &quot;blue eyes&quot;" /><br />
<br />
<i>ao fundo: you really got a hold on me</i><br />
Ela diz: "Se eu fosse uma menina no meio do baile, você me olharia?" Ele - mexendo os ombros: "Talvez". Ela leva a mão à boca, encosta o dedo indicador no lábio como se precisasse arrancar a pergunta de lá com as mãos: "Mas por que não é certeza?" Ele gira, prende a mão direita no bolso da calça: "Porque é diferente". Ela reforça o passo no refrão, levanta o queixo: "Diferente de quê?" Ele ensaia um passo para trás, dobra um tanto o joelho e volta com o passo para trás. Um passo. Ele não responde. Ansiosa, ela balança os ombros, feito estivesse encaixando os pensamentos. <br />
Desdenha: "Diferente, diferente". <br />
 <br />
<i>outra música: you never give me your money</i><br />
"E eu? Você me olharia?" - ele, ajeitando a gola da camisa branca. Ela, no pensamento: "Ele fica tão bonito de camisa branca". Gira, levanta o cabelo. "Ia depender do dia." Ele sorri uma certeza: "Eu sabia". Ela, testa franzida, lábios secos: "Como sabia?" Ele, ainda a gola: "Você também ia dizer talvez". <br />
 <br />
<i>por último: happiness is a warm gun</i><br />
Ela encontra uma cadeira no salão. Ajeita o broche do vestido (tem vocação para minúcias). Ele, a camisa e o sorriso. "Eu queria sentir sempre essa felicidade", ela. "Essa de entender alguém, de intensidade, de euforia serena." Ele, ainda com os grandes dentes e os olhos claros: "Eu te entendo. Desse jeito de entender". Ela: "Eu sei que já são quase duas, mas, se eu colocar um filme, você fica?" <br />
<br />
<div style="text-align: center"><br />
*</div><i><br />
Pela companhia no passo de dança,<br />
de noite no meu baile inventado.<br />
Por isso, Caco. </i><br />
<br />
<br />
<br />
 
	<h3>leia também no <a href="http://www.tipos.com.br">tipos</a>:</h3>
	<ul><li><a href="http://vanessagummo.tipos.com.br/arquivo/2008/02/26/the-breeders">The Breeders</a></li><li><a href="http://gisele.tipos.com.br/arquivo/2008/02/26/minutos-congelados">:: minutos congelados...</a></li><li><a href="http://fabricio.tipos.com.br/arquivo/2008/02/26/bela-por-qualquer-angulo">bela por qualquer ângulo</a></li></ul>
	]]></description>
	<category>Geral</category>
	<comments>http://amaranta.tipos.com.br/arquivo/2008/02/26/um-baile</comments>
	<pubDate>Tue, 26 Feb 2008 17:15:12 -0300</pubDate>
</item>
  </channel>
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