solzinho
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viver é só.
é um não sei de gastura no olho.
*
o pai começou a carta assim: "estou velho". juntou no envelope duas fotos de ele na colheita de milho. chapéu e camisa linda-linda de suor escorrido.
o pai desenha o sol nas camisas.
outro dia, de sentado, o sol nasceu nas costas do xadrezinho de algodão. era um sol se pondo no pai.
o chapéu é de justinho na cabeça porque, não, na cabeça não pode desenho de sol. é que dói e o pai acorda cedo de dar bom dia ao milharal: o pai não pode doer. nemnunca. o pai de "estou velho" acorda o sol.
*
eu escondi o pensamentinho de a mãe à noite. escondi na fronha. o pensamentinho ganha uma lágrima por dia.
eu teci um riozinho no pensamento de a mãe. ela nada no meu olho.
*
tem outro pensamentinho escondido que é o de ela, a moça vestida de saudade bem floridinha.
nem não pode pensar muito que é de silêncio no susto. nem não pode dar lágrima ao pensamentinho de ela.
é penso de riacho.
*
viver é só.
é um não sei de gastura no olho.
Comments
4 commentsNossa, que lindo isso.
"o pai não pode doer."
Poderoso! Parabéns pelo texto!
Lindo, tudo!
sensacional!
Estou sentada na margem do riacho. Quieta e lá.
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