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29 May 2008

dizer

"cenas de um casamento", de bergman

Foi uma tarde em que todos diziam: o amor, o amor, amor. Foi uma tarde de eu-abrigo. A moça branca de olhos azuis ligou e sentou-se no café para dizer; eu corri pela rua com a gérbera amarela para dizer; a de cabelos crespos estava apavorada e, há dias, fazia só dizer; o homem de passarinhos sentou ao meu lado esticando os braços sobre meu ombro para, aos meus olhos, dizer.

*

Ela esperava as flores de antes na estréia. Ele não apareceu. Na noite de estréia. Um segundo antes da cena, ela esperava. Os olhos azuis e a pele branca, chorou quando estava terminado o espetáculo. Ela nunca ficou sem as flores em noites de estréia. "Nunca, nunca", ela, chorando.
Comprou um apartamento, tentou desmanchar o cachecol, pensou não ser mais nada e o carro, ah, o carro. Ela não olhou o farol. Ele a esperava do outro lado, pálido. "E se...", ele. E ela: "Eu disse não". E, então, não ganhou mais as flores em noites de estréia e precisa, agora, sentar-se nos cafés para, sozinha, dizer.

*

Eu entreguei a gérbera amarela. Não havia razão para embrulho. Beleza era de não repetir, de só a gérbera. Corri a rua e, no café, ficou a flor. Era doído de saber que o amor, o amor, o amor. Ela chorava. Eu, só quando contei das malas. Até a porta, as malas. "Era ter que dizer adeus ao contrário, entende?" Ela chorava. "Sim, era de ir embora para dentro." Ela chorava mais e dizia para eu não deixar o amor. "Você não", ela. Eu expliquei que não deixava, que, no "e se..." dele, eu respondia que sim. Mesmo sem esperar as flores em noites de estréia.
Antes de levantar, era o caso de lembrar "o amor não se encomenda". Ela sorriu, desceu a rua. E eu lhe comprei lenços de papel. "Para os amores que nunca secam." Minha reverência à moça branca que dói.

*

A de cabelos crespos deu de ansiedade desde a primeira carta virtual. Teme não ser o sonho. E não será, eu explico - e ela sempre pergunta. Deu de ânsias.
Não, não será o sonho porque o amor, o amor, o amor.
É de repetir os olhos.

*

O homem de passarinhos arejou as roupas dela todos os dias. Os vestidos e os cabides em passeios pelo quintal de manhã. Ele a esperava. (O ar era sua reverência)
Talvez ela não quisesse mais aqueles vestidos. Não voltou.
No ano passado, ele vendeu a geladeira que ela deixou. Não ficou mais nada para os cabides.
"Sem vestígios do amor", ele disse.
É um homem de vento.

*

Desenhei mais duas flores, porque eu não podia mais dizer. Em breve, serão dez desenhos. Eu dei o nome de silêncios.



Comments

3 comments
sara [desloguilson] wrote:

Para os amores que nunca secam! lindo!

30 May 2008 at 09:02 PM
Laerte Kessimos [desloguilson] wrote:

ô menina que escreve bunito dentro da gente!

06 June 2008 at 02:20 PM
Regina K. [desloguilson] wrote:

só venho aqui e leio.
não posso comentar.
venho como quem nem tem o direito.
venho e deixo as muletas do lado de fora.

tanto tempo já faz.

06 June 2008 at 10:00 PM

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