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26 May 2008

repetir

leonilson

Às aflições sem nome, ao que eu não soube dizer ontem à noite, às franjas do tapete que deram nó na máquina de lavar, toda a solidão de linguagem. Minha ilha de mim. Ontem, eu precisei desenhar flores até doerem de muito os dedos, doerem de repetir até que cada flor fosse outra. Repetir a dor até que fosse outra. Para doerem dedos - ao menos saber dizer que a dor é nos dedos. Para significar as franjas do tapetes e saber dizer que, não, não houve quem estendesse os grampos e, então, foi bom sentir a ilha toda minha. Mas o conforto também dói. Como um alívio. É assim, eu te explicaria: encontrar abrigo de chuva, embora seja boa a chuva e o não ter abrigo.
"Nada pode o olvido, contra o sem sentido apelo do não", eu lembro desde os 11 anos. Eu lembro de isso escrito atrás da porta e lembro de gritar, de dentro da minha ilha, na esperança de que alguém pudesse dar resposta: "Esquecer o quê? O quê? Qual é o nome do que eu esqueci?" Mas há o apelo do não.
De manhã, havia apenas um feixe de sol na calçada e eu o deixei de presente às costas. Chegou a doer, pensei desmanchar o cachecol, mas fiz força para o não. Para sentir, como se pode sentir nos dedos a dor de muito do desenho das flores. Eu estava repetindo o sol. Pensei então que, de repetir meu grito, talvez alguém responda para dentro da minha ilha o que eu esqueci. O apelo do não, as franjas do tapete que deram nó na máquina, as coisas sem nome, tudo iria habitar um feixe de luz e poderia doer pelo que tem de claro, como os dedos depois dos desenhos.





Comments

5 comments
rubaomf [desloguilson] wrote:

Sensacional, como sempre!

26 May 2008 at 02:04 PM
Fada Azul [desloguilson] wrote:

os dedos também doem de desmanchar cachecol. é porque desmanchar dói mais do que fazer, muito, muito mais.

27 May 2008 at 04:21 PM
Fada Azul [desloguilson] wrote:

os dedos também doem de desmanchar cachecol. é porque desmanchar dói mais do que fazer. muito, muito mais.

27 May 2008 at 04:23 PM
sara [desloguilson] wrote:

"ao menos saber dizer que a dor é nos dedos"... as vezes me pego pensando de onde vem tamanha dor?!?!
saudades das historias das meninas em tardes frias de domingo! queria aniversario de borboleta... com direito a purpurina e picolé de cereja! bjss

27 May 2008 at 11:36 PM
marco [desloguilson] wrote:

oi, dona audrey
soube esses dias do seu blog, uma amiga de longe me falou dele. eu, que só conhecia o antigo, achava que tinha parado de escrever. imagina. quanta coisa boa por aqui. tenho muito pra ler ainda. beijo

29 May 2008 at 10:42 AM

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