destinatário

quando ela acordou, ele já estava lá, enrolado no lençol de algodão branco. como espiasse de longe, ela descalçou os sapatos ainda na porta e deslizou para dentro. em silêncio. ele se virou. coçou o nariz. ela estava na ponta da cama. era como se nunca tivesse entrado naquele quarto antes. tirou uma a uma as pétalas que enfeitavam o cabelo e deixou-as sobre o móvel branco. em silêncio. não se pode acordar o destinatário das poesias. arrancou, enfim, a última das 18 pétalas. eram de uma gérbera que ela havia deixado no cabelo, parece, há alguns meses. apesar do tempo, eram ainda de vermelho-grito.
soltou o cabelo, porque, pensou, já não precisava do penteado. olhou o corpo enrolado no lençol. examinou e sussurou para si mesma: destinatário, destinatário. então, como desatinasse, voltou a enfiar no cabelo cada pétala. arrematou com grampos, refez o penteado. desembrulhou duas borboletas azuis dos bolsos, colou quatro nuvens na parede, rodopiou até a vertigem de um apaixonado e, quando parou, ele ainda estava lá.
Comments
3 commentsele sempre esteve lá
na pétala-janela aberta do cabelo
ele se faz de morto
pra nao matar mais nada
ninguém sobreviveria
alguém os veria e bummmm!
pedaços,coração.
ele sempore esteve ali
e tá lá um corpo estendido no chão
Jazz Mim:
- cadê meu cadáver?
há de haver um naco
um pedaço decomposto do desgosto
que eu me dei
dei meu tudo
meu furto
meu fruto do mar macho
meu lagosto
e teu rosto que adoço
num fosso sem fim
posso voar ou posso seu poço
meu,
minha posse se fosses
nunca mais roubava nada pra mim.
Jazz mim:
levou meu revólver?
Cadê meu cadáver?
era domingo? e a irmã mais nova? e as meias listada não devolvidas? teu amor também pinica? (...) amo-te suavemente!
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