Dos meus inventos, eu sou o que mais veste enfeites. Talvez por não ter conseguido me vencer. De menina, inventei que eu não podia tirar menos de 9. Não por nada, se não para ter mais uma invenção minha com que brincar. E nunca tirei menos de 9. Ganhei meu jogo. Não seria um tipo de morte? Como o desejo, que, em si, tem seu fim? Eu me ganhei nisso. Entramos num acordo, eu e meu invento, de que estava feito. Mais tarde, de já crescida, novo brinquedo: o de matar o amor. Era assim: a gente inventava que ele existia, botava flor, enfeite, vestido de fada, apostava corrida com outro amor, rodopiava de vento e esvaziava a história. De tudo, a gente guardava a flor, o tulezinho do saiote e a corrida que ninguém apostou. A mágica estava nisso. Ninguém apostou, não houve corrida. Era apenas em sonho e, por isso, mais precioso, feito duas flores feitas de crochê guardadas em um vidrinho com fios cintilantes. Inútil, amém.
E de tanto inventar, desfiei um vestido todo de não saber o que é. Há ainda o vestido? Ou já existe apenas o desejo de um vestido, que, em si, morrerá tulezinho entrando na máquina de costura? A verdade do vestido não está em quando a gente imagina o tulezinho virando vestido? Porque depois ele já não é.
Dos meus inventos, a aflição de viver é o que nunca vestiu nada. Não coube vestido nela, porque quis todos os vestidos. De criança, eu inventei um clube que era de reunir todo mundo que doía. E toda a gente do clube podia desenhar na parede, segurar giz de cera, pedir mais papel pra mãe e inventar que a gente toda outra que não era aflita podia ver de longe e enxergar que era tudo lindo lá dentro do clube. Não tinha ninguém, mas eu conversava o dia todo e a parede ficava linda, desenhinho de solidão. De já crescida, eu inventei de novo e, então, ficamos eu e ela, minha amiga, no clube. Ela enchia o chão de tulezinho que era pra sentar em sonho. Eu rabiscava e ela olhava de beleza que era nosso invento. Ficou sendo todo nosso. A gente botou aflição na gente que não doía e matou a anestesia. Dor de prazer, de vida, de todo mundo sangrando de ver o desenhinho de solidão. De manhã, a gente lavava o tulezinho. Era de sair tanto vermelho de sangue! Você deixava lindo, que era para o próximo aflito poder sentar confortavelzinho.
Eu te inventei mais um jogo de lembrar todo invento. Pintava numa carta o coturninho, na outra também. Riscava aquela noite em que eu inventei a rasteira e, mais uma vez, riscava em outra carta. E, assim, você adivinhava o passado dos inventos. Feito quem abre a cortina, mas espia para o lado de trás da janela e vê só a luz entrando na mobília da casa. Era de ver tudo como fosse novo. Espanto, amém. Ainda te fiz um vidro com flor de crochê boiando em fio cintilante. Te vi segurar tudo com uma pinta na palma da mão e o cabelo de árvore escorrendo no rosto. Inventei você num riachinho, te pedi pra ouvir o medo de a mãe não amar mais e enchi cinco copos de água quando você deu de chorar de manhã. E te fiz invento pra não pedir nem nada. Porque era de ver você botar aflição na gente e de eu poder esticar o bloquinho quando ficava pronta mais uma história. E toda história era depois que você tinha inventado os seres: um caranguejo maluco de coração comprido, um gigante de olho que trocava as cores, um moço que encantava violão e sabia fechar portas. Eu era toda sua aflição no bloquinho, de chorar quando você pedia mais papel pra mãe porque, não, por favor, a gente não quer sair daqui.
De agora, de não ter mais idade, eu invento que já vivi. Na vida, eu era mágica e tinha uma amiga que enfeitava o chão de tulezinho para ver aflito escorrendo sangue. A amiga também era mágica e acordava com essa dor de ter inventado todo o resto e até a própria dor. De já não ter mais idade, de agora, ela morava num riacho e eu chorava de ver que era beleza aquilo tudo.
A gente tinha inventado que viveu. Mas o tulezinho no chão, o tulezinho era verdade.