alvenaria

Era uma solidão de linguagem. O pai, de barro. A mãe, alvenaria. Os dois cruzando os olhos enquanto ela engomava a gola da camisa. A mãe era de alvejar. O pai voltava sujo de terra. Sempre. Encontravam-se, na solidão de linguagem, quando ela estendia a camisa no varal, uma tristeza de alma. Os olhos de muito preto distantes, ele alcançava os grampos.
Estavam presos num silêncio de não saber pronúncia. Tudo era silêncio, paisagem bem longe. De barro, de alvenaria.
Então, eu sei que também estou lá. Estendo uma camisa alvejada no varal e apenas quero que me alcancem os grampos. Mas, mesmo para a solidão de linguagem, de não ter pronúncia, não há grampos, nem camisa para alvejar. Não há cuidado que não seja um novo disco para esperar que toda a roupa fique pronta, dobrada sobre a cama no dia seguinte. Não há pronúncia, nem mesmo a possibilidade de pronúncia. Não há, em mim, um de barro para a alvenaria.
Assim, o pai carrega as sacolas do mercado quando chega. Abandona todas na porta de casa para que a mãe conduza tudo ao seu destino. As balas e os quadradinhos de doce de leite de que ele gosta na primeira porta do balcão de madeira da sala. O alvejante, a caminho da área de fora. O alvejante. Ela pode comprá-lo – e também as balas e os quadradinhos de doce de leite, que ele carrega até a porta de casa para que a mãe conduza tudo ao seu destino. Tudo sem palavra.
Tenho balas em casa. Elas sobem comigo, nas minhas mãos. Não há quem as carregue para que eu possa exercer a mágica de apontar-lhe um destino que será desde muito tempo. Porque as balas do pai nunca saíram da primeira porta do balcão de madeira da sala. Mas não. Sem pronúncia, na solidão de linguagem, ainda não tenho fim para as balas, os quadradinhos de doce de leite. Tenho balas em casa, mas por solidão incompleta: a de linguagem, a de objeto. Não há porque dizer e não há sequer motivo para dizer, porque não há amor. Mesmo no pai, mesmo na mãe, mesmo naquilo que eles não souberam pronunciar, não há amor: há camisas para alvejar e grampos para que fiquem presas ao varal. Como são penduradas as horas e os sonhos até que, secos, sejam ilusões dobradas sobre a cama.
Não há sequer o que se pendurar. A solidão de linguagem, a impronúncia, a ausência de verbo estendem os grampos para a distância de objeto, a falta de camisas e braços que, dentro delas, fiquem pintados de branco alvejado.
Não tenho vestido a solidão de linguagem. Ela anda nua. Não posso dividir a impronúncia, as sacolas de balas, o silêncio. É como estar longe. De um longe repetido de muito. Onde não há nada e uma camisa alvejada no varal dói como um alívio.