São Paulo, 2 de janeiro de 2008.
Às 14h.
Minha amiga,
é preciso dizer que foi uma bela viagem. Com os silêncios e os risos que podemos nos dar.
Te espero no sábado para carregar a máquina de lavar.
Um abraço (com a importância que você dá aos abraços),
audrey
p.s.: O casal de cegos do metrô desceu no Paraíso. "Sabe o que eu pensei pra nós dois?", ela perguntou, saindo do trem. "Comprar dois pacotes de pão Pullman." Ele concordou.
*
Resposta às 14h53.
O mais bonito é que mudas sabíamos do amor dos cegos.
***
O mais bonito é que choramos no graal e também à beira do riacho.
***
O mais bonito é se encantar com a solidão preguiçosa.
****
O mais bonito é estar com você.
****
Sempre: grave e irreversível.
*
Às 17h.
Eu sabia que você sabia. Dos cegos, do meu choro doído no riachinho, de eu dizendo a minha mãe no ônibus, de eu sendo eu como eu só sei ser comigo e com você.
Amo, Mileto. E isso é o melhor que tenho. Isso de amar Mileto.
*
São Paulo, 15 de janeiro de 2008.
Às 17h.
Mileto, minha amiga,
obrigada pela conversa ao telefone. Tenho para mim que tamanha aflição, aflição exposta como esta que todos percebem, tende a passar rápido. Sinto que, em breve, terá se diluído. Deixarei encarregado de parte dela o anjo da guarda. Da outra parte, vou me ocupar cobrindo-a com bonitos lencinhos de crochê, películas de filmes delicados e leituras tecidas de livros. Tenho para mim que, em breve, a aflição estará tão bem esquecida que, numa mágica, ao retirar os lencinhos, ela já não estará mais lá.
Será breve, eu sinto. Questão de semanas. Para tanto, há que se ocupar dos lenços e dos lençóis da nova casa. Gosto da minha solidão que, por ser só minha (e sua, que é minha tb), não será alvo de tamanha aflição nascida de desejo de posse.
O mais lindo da vida é isso que agora te conto: estava pensando em vida, em ânsia de nova vida, de projetos, de cobertores para aflições, quando topei com o pé em Machado de Assis. Segue, às 17h30, trecho de Dom Casmurro:
"Entretanto, a vida diferente não quer dizer vida pior; é outra cousa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que achei, é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal (...)
Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis variar, e lembrou-me escrever um livro."
distantes-meninas,
a solidão não caminha flutuando. passos pesados, que um café e um sorriso não resolveram. andar mineirinho, olhar doce, diz que entende. acolhida, acredito pelo segundo de acreditar.
acontece de aquele instante, o outro, imediato e fugaz insistir em permanecer atado ao eterno. fica protegido das variantes do tempo, naquelas nossas palmas encontradas.
sabe, meninas-distantes, foi singelo e surpreendente. ainda é doce e desejado. tão-tão. de uma lágrima.
assim,
catarina