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25 December 2007

pensamentinho de agora-já

woody, que também não sabe andar de bicicleta)

de repente, eu pensei: como é que os casais se dizem "eu te amo"? não o "como" referente à construção da frase. mas o "como" da capacidade, habilidade, aptidão para. foi assim muito rápido que me veio esse pensamento: vi um "eu te amo" escrito por uma moça para um moço e, num nó, eu percebi que eu não sei "como".
o "como" da habilidade. talvez porque não seja uma habilidade. mas será que não? será que não se trata de um aprendizado e que, de fato, é preciso trabalhar e desenvolver a habilidade de dizer? porque eu ainda acredito que, quando se diz, quando uma moça diz para um moço, ela sente e tem a habilidade para dizer o que sente. porque não é preciso se perguntar se sente ou não. o "eu te amo" é, tem de ser, precisa, carece de nascer antes da razão.
antes de o "como".
e eu gostava de dizer. quando dizia, era como se ninguém mais tivesse dito, desde romeu e julieta, porque o meu amor era - e é - tão inédito em mim que precisava ser trágico, tenso, preciso até mesmo no descompasso. e, agora, tem o silêncio. silêncio que eu gosto, que é de estar dentro, tensa, trágica, num amor ainda inédito que é o amor pelo silêncio. mas também me preocupa porque eu fico pensando que se eu não digo é porque não sinto e porque estou ficando inábil pra dizer e talvez inábil pra sentir e talvez tenha desaprendido, que amar não é igual a andar de bicicleta. a propósito, a minha sempre teve rodinhas. eu nunca alcancei o chão. era baixinha demais.
é isso: meu "eu te amo" me ultrapassa de altura e daí eu caio e ralo o joelho e, jesus cristo, é melhor ficar em silêncio antes que venha a curva e eu, ai!, ganhe mais uma cicatriz.



19 December 2007

antes da razão

schiele

No sonho, eu tinha desejo e ele, dentes brancos. Já não escutava o que ele vinha dizendo: era sempre uma boca se movendo. Uma boca, dois lábios. Os dentes lá dentro anunciavam, em cada sílaba, a possibilidade de uma mordida. Ele estava sentado e eu tinha desejo. Pude esticar a mão até que, com a palma, todo aquele quadrado de queixo e mandíbulas estivesse encaixado no meu começo. Sim, porque, no meu desejo, tinha ação. E, por isso, meu gesto não era coreografia. Apenas por ser verdade, eu estendi a mão. Aquilo teve velocidade selvagem, de instinto, posto que só agora posso descrever o fato sob o olhar de lentidão afeito às memórias. O braço estendido em direção ao rosto era um impulso incontrolável, dotado de verdade irracional, como ocorre a um leão lambuzando-se em sangue da presa.
Ele tinha os olhos fundos, como os de um bandido. Tão fundos que era feito se esquivassem, de fato, dos meus olhos, enfiados, cravados naquilo que eu desejava. Sim, é preciso repetir: eu tinha desejo. Os ângulos do rosto dele eram mais e mais intensos, tensos, ao passo que eu me esforçava para encontrá-los. No sonho, eu era antes da razão e podia buscá-lo com os dedos, a palma da mão. Ele desenhava uma fuga com o rosto, mas eu, eu-com-desejo, era forte. Forte de quando não é preciso pensar, porque é preciso sentir e sentir é mais instintivo. Ele era tão alvo de precisão minha que, se não o escalasse, se não o rasgasse com os olhos, deixaria de existir. É isso: o desejo transformava-o em precisão. Eu não poderia pensar, se não com a mão já enfiada entre seu queixo e os olhos. No sonho, sangue.
Até que, quando ele falava, deitando o lábio superior lentamente sobre o inferior, como se os dois fizessem amor na boca, eu o beijei. Havia leveza vermelho-sangue no beijo. Eu pude sentir os dentes dele e estava plena. Uma invasão de mim em mim, um estar alimentado pela vida inteira coube todo em minha boca. E tudo era instinto e desejo e satisfazer o desejo para estar, de fato, viva. No sonho, eu tinha desejo e o beijei, posto que de olhos abertos, de olhos abertos, eu talvez não saberia.