de ira e deslumbre

alumbramento não cabe em palavra. fascínio é mudo. o deslumbre é silencioso, dorme no estômago, arranha amígdala, não passeia até os lábios. que coisa é essa de me dizer "gostei demais"? se gostou, não faça vulgarizar. o encantamento é um nó na língua. eu quero o silêncio após o filme, a peça, o passo de dança, o som. se entraram, se intensamente entraram, não poderão sair em frase que se diz como um "tudo bem" amanhecido.
o que me toca não me vem à boca. me deixa ficar em silêncio. não quero que goste do meu gosto. não sou presidente de um clube. não quero que use meus amores - são meus, ninguém nunca os terá. cala a boca se a música é linda. não há palavra que diga. vá banalizar o seu apreço do outro lado da rua. sai da minha sala, eu não quero explicar porque amei. eu choro no cinema e você nunca vai saber. agora, se o sabe, é porque te esfrego meu alumbramento calado. alumbramento de interior, uma dobra no meu papel de alma. nem mesmo a ira, esta aqui, se sabe dita. é feito um deslumbre dormido de brilho. é o meu escuro, meu jeito de apagar a luz. vai embora. deixa eu sentir o nó. é meu.




