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28 November 2007

de ira e deslumbre

nelson leirner

alumbramento não cabe em palavra. fascínio é mudo. o deslumbre é silencioso, dorme no estômago, arranha amígdala, não passeia até os lábios. que coisa é essa de me dizer "gostei demais"? se gostou, não faça vulgarizar. o encantamento é um nó na língua. eu quero o silêncio após o filme, a peça, o passo de dança, o som. se entraram, se intensamente entraram, não poderão sair em frase que se diz como um "tudo bem" amanhecido.
o que me toca não me vem à boca. me deixa ficar em silêncio. não quero que goste do meu gosto. não sou presidente de um clube. não quero que use meus amores - são meus, ninguém nunca os terá. cala a boca se a música é linda. não há palavra que diga. vá banalizar o seu apreço do outro lado da rua. sai da minha sala, eu não quero explicar porque amei. eu choro no cinema e você nunca vai saber. agora, se o sabe, é porque te esfrego meu alumbramento calado. alumbramento de interior, uma dobra no meu papel de alma. nem mesmo a ira, esta aqui, se sabe dita. é feito um deslumbre dormido de brilho. é o meu escuro, meu jeito de apagar a luz. vai embora. deixa eu sentir o nó. é meu.



20 November 2007

de quando eu esqueci

mario cravo neto - "kadi com véu" (1993)

Eu esqueço de tomar água. A Ju diz que é bom tomar água. A Ju e mais um monte de gente que é bem importante dizem que é bom tomar água porque hidrata a gente. A Ju também diz que eu não devia me esquecer de tomar água e de saber que eu também já quis ficar perto. A Ju e um monte de gente que eu invento aqui dentro dizem que eu tenho que lembrar que eu também gostava de gente e que água é bom para hidratar a gente. Eu pensei daí que eu precisava lembrar de botar toda gente na água e hidratar e tomar toda gente porque é bom para a saúde e para a memória. Daí eu nunca mais ia ficar desidratada de gente nem ia esquecer que eu também já quis ficar perto da água.

*

O irmão gritou "Fia, fala comigo", mas com muito "ooo" no comigo acabando. Eu ouvi o "ooo" do irmão na palavra. O irmão me chamou "Fia" porque era bronca de mais velho que quase o pai. O irmão falou que não carece de ficar em silêncio, feito ele quando dói. Eu pensei que eu aprendi: o irmão nunca derrubava lágrima, segurava fio e coloria com semente. O irmão ouviu o que eu pensei e falou que não carece de ficar em silêncio, que ele sabe que o meu dói é barulhento.

*

A mãe disse que não vai mais ligar. A mãe ligou e disse que não vai mais porque eu preciso lembrar sozinha. A mãe disse que eu não ligo de sozinha e que ela não vai mais lembrar. E daí ela disse que eu sozinha lembro que a mãe é sempre mais de uma, que nem eus.

*

O chão aqui é todo de florzinha vermelha repetida de muito. É um jardim de azulejo. O sol é de lâmpada, geladinho.

*

Eu nem sei o nome disso aqui do lado de dentro. Mas deve ser bem azul-assustado de quando a gente pensa que desmaia. Eu ando sem nome de dor. Esqueci de sentir? Mas se era só penso, daí que tinha nome! Será? O meu triste é esquecido.

*

O meu triste é esquecido.



15 November 2007

pelos amores platônicos de uma noite só

leonilson

O talvez é um travesseiro de espinhos e ela tem três. Desde menina, os mesmos três. Neles, os príncipes, os castelos, os olhares e a manhã chegando. Os travesseiros para que não se realizem, para que sejam o que podem ser de mais bonito: espera. Os amores são em sonho. Nada há de mais dela que o delírio, aquela flor pendurada no céu para que se percam os ônibus, para que se passe do ponto, para descaminhos.
E, como uma costureira de distâncias, ela tece vestidos que nunca vestirá. Despede-se antes que ele venha, antes que possa dizer olá, com a voz não tão sonhada. Não há veludo quando ele se aproxima. Não há delícia se não quando se deita.
Dormem costurados entre fronhas os amores. E não há desilusão, atraso, medo, que não estejam deitados em lençol de algodão, presos ao colchão pela mãe para que lá, apenas lá, o amor se encontre. E ele sofre de insônia. Quando amanhece, mente.


13 November 2007

deslembrança

fábio morais

Reuniu os ontens num canto da sala. Decidiu guardá-los ali para evitar os tropeços. O tempo em que ela prendia os instantes entre os dedos como se fossem borboletas pegas no ar havia se encerrado. Fazia questão agora de que todas fossem um sem-fim de indo-e-vindo desprogramado. Assim, voltava a praticar o hábito de criança, quando escondia flores entre as páginas dos livros. E lá elas ficavam para que fossem, vez ou outra, a sutil surpresa no ato da decisão de ler um poema. Ela, menina, bem sabia em que livro estava a margarida descolorida ou a sempre-viva roxa desbotada. Mas pregava-se a peça de fazer de conta que já não se lembrava para achar encanto na florzinha (re)encontrada.
Agora, era assim com os ontens: guardou-os num canto, como se os escondesse de si mesma. Desaprendia que eles estavam lá e logo se tornavam flores dormindo dentro do livro.


07 November 2007

carta

"red with dance" - liliana porter

Vinha sentindo aquele desejo de solidão há algum tempo. Aquele que te levou ao sertão. Aquele que me dobra para dentro. Continuo aqui tentando os momentos de eu-eu, sem eu-perto de outro. Mas ainda me são raros os dias de silêncio do lado de fora. É tudo bagunça de crianças correndo no recreio e consigo prolongar por minutos aquele segundo que a gente vive antes de desmaiar. Uma consciência da inconsciência. É como se fosse possível enxergar no escuro e deixar de ouvir quando as caixas de som gritam mais alto. É físico, de fato, como uma tontura. Mas o que me traz, em seguida, é um estado de despedida de alma. Talvez ela não esteja aqui. Talvez esteja apenas quando eu apago a luz e estudo as minúcias da parede, com os olhos arregalados no escuro. Enxergo bem quando estou dobrada em mim. (virá ainda um texto sobre isso e você lerá antes.)
Ando, mesmo assim, precisada da sua mão. Há algo nela que, detectei há meses, me deixa inconsciente da consciência. Vale-alívio é o nome que dei e que, agora, usamos. Ando precisada das inconsciências sensatas, do dançar no teto com as costas bem apoiadas a fim de evitar torcicolos, de ir até a porta de 1953 para, de lá, saber que não há saída. Ando precisada desse tanto de verdade tão real que é alucinógena, como se tudo ficasse mais forte, mais vivo (com pulsação, batimento, sangue), como se as ruas não fossem placas de massa asfáltica, e sim um cuidado que faz abrir - desabrir - caminhos.
Como Levi, preciso de Elias para (des)alinhavar estradas. No mais, se não damos as mãos, a vida é um pequeno desmaio da inconsciência.
Saudade que não cabe ser dita,
a.


02 November 2007

eu não pedi um espelho

brígida baltar (2002)

Ela havia vestido blusa verde naquela manhã. Lavou os cabelos com xampu de guaraná para que tivessem o hálito fresco das manhãs. Secou, penteou, olhou de soslaio no espelho, quase de partida. Deixou a porta com os mesmos sapatos de sete anos atrás. Tomou o elevador verde segura. A chuva estava fina e dispensou o guarda-chuva.
Adentrou a padaria certa do pedido: uma média, pão branquinho e queijo branco. Oswaldo, o mesmo de todas as manhãs, serviu-lhe ágil e, com a mesma agilidade, passou a discorrer sobre o que faria com o prêmio da loteria. Ela já não prestava atenção, mas era ainda gentil com os olhos. Concordava, exibia um ou dois sorrisos, esboçava palavras.
Eram mais de dez horas e a padaria estava deserta. "Eu não iria para os Estados Unidos, minha querida. Eu viajaria pelo Brasil. Iria conhecer cada um dos municípios do país", derramava Oswaldo. Entre uma e outra mordida no pão, ela sorria. Um pouco mais a frente, a outra atendente, 87 quilos, dois incisivos a menos na boca, ouvia o monólogo. gritou: "Oswaldo, venha cá!" E lá se foi Oswaldo.
Ela pensou que, sozinha, poderia devorar algumas bocadas consecutivas, antes que o queijo no prato estivesse frio. De costas, a outra atendente da padaria esboça uma tentativa de sussurrar para Oswaldo. Mas não. O som da sua voz sai alarmante. "Mas ela nem é bonita, Oswaldo!"
Ela abandona o pão no prato sobre o queijo que, já não importava, estava frio. Sem saber que ela escutava, Oswaldo tenta retomar a prosa com um "Mas a beleza está no coração, não é mesmo, minha querida?" Ela derruba os olhos no prato, abandona a média, sorri uma mentira e despede-se. Paga a conta, R$ 2,50, coloca os fones de ouvido e, já na rua, decide que, enfim, é sempre melhor escutar.