Eram duas, só duas andorinhas, na minha janela. Nós duas. A melhor sinfonia de passarinhas. Zanzavam pelo céu de baunilha, já entardecendo, vestindo de laranja cada passinho. Ritmadas, as duas andorinhas. Diminutivas imensas. Iam até o lado de lá da minha janela, feito escrevessem um poema. Voltavam ágeis para cá, as asas de planar, enganando o vento para que não fossem tão de fácil leitura. Enfeitavam um céu de sertão, duas menininhas descobrindo o que se pode voar. E tudo é vento nelas! E tudo voa! Elas dançavam separando um arzinho pra lá, outro pra cá. Um desenho. O céu todo rabiscado, uma folia.
Eram sempre as duas. Fazendo firulas, deixando as outras no chinelo, sonhando alcançá-las. O céu delas era outro. Nada cura o amor, elas sabiam. Vez ou outra, lá vem outra andorinha! Elas aceitam, ensinam um ou outro passo. “Para lá e se faz um verso. Entendeu?” Mas não. As outras eram só tentativas. Elas sabiam. Do amor, dos demônios, das cores e de como se pode arder nelas. Duas menininhas entendidas do que nunca se pode entender. Fazendo do céu um palquinho, mínimo, para a melhor dança. Elas inventam e são sempre duas.
Andorinhas perdidas, à espera dos fogos de artifício para correr. O mais rápido que se pode! Correndo, as duas passarinhas! Elas querem todo brilho, mas se já explodem... o que pode assustá-las? Como estar entre as mocinhas dançarinas de céus? Elas fazem verão, em outubro, na minha janela. Contam pra mim, que, quem sabe, são sempre duas. Tomam o céu de empréstimo da vida para desenhar o nome de duas menininhas, que espiam, pela janela ou de dentro do casulo, que, não, nada cura o amor, mas a dança... a dança é sempre tão linda.
E as duas andorinhas, sempre duas. Menininhas.