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26 October 2007

1953

eder santos - call waiting 2005

quando duas pessoas se amam, é 1953. importam-se menos com os beijos do que com os chocolates. dão as mãos por uma boa dança, desenhando nuvens nas coxas. quando duas pessoas se amam, é 1953 e está tudo morto. não chove ou faz sol. vive-se o que o céu permite. a intensidade dos sentidos é, ao mesmo tempo, a ausência completa deles. não há sabor que desagrade, porque não há sabor. o gosto é o que não se sente. está pintado entre dois lábios. quando duas pessoas se amam, trancam-se em 1953 para que nunca amanheça.
tem-se lençóis, mas são inúteis. há janelas abertas e pouco importa o vento. é tudo cenário. a rua suja, a água entrando nos pés, o cadastro de um quarto de hotel, dois litros de água para a sede, que, de fato, não existe. pode-se viver sem líquidos em 1953. porque, quando duas pessoas se amam, o que existe é inútil. as coisas sem texto são as importantes. ganha altura de mágica o silêncio e, ainda assim, as letras se abrem, como estrelas na boca: você as cospe para que eu coma. quando duas pessoas se amam, é 1953 e se pode inutilizar o mundo.
a beleza dorme tranqüila enquanto dança entre as malas do quarto. então, um diálogo é tecido como o sol arrebenta a madrugada. estamos prestes a partir. e você vai até a porta de 1953 e me aponta de lá que, não, não podemos voltar. 1953 é irreversível, grave. não há distância: quando se ama, como nós, em 1953, há apenas dentro. provamos, mais uma vez, que há arquitetura: cabemos no despropósito de acreditar, um cômodo confortável forrado de espinhos. você quer aprender a cortá-los. eu quero que se desorganizem. pelo equilíbrio discreto, forjamos ações que, enfim, podem deixá-los imóveis. nossa reverência à dor, porque, sim, em 1953, há a dor. e é por ela que dançamos e compramos os melhores chocolates e desligamos a televisão às duas e meia.
você e eu sabemos que dois distantes estão sempre abraçados. não há distância na diferença. a felicidade é também o que chora. fazemos do riso um emplastro verdadeiro - tudo é verdadeiro em 1953. é preciso arranhar as costas nos espinhos para que, outra vez, venha o motivo de, por que não?, tentar resolvê-los. mas não. nunca se resolve. a inércia é o ato principal em 1953.
você nunca diz que me ama. e isso é o máximo do amor. quando se cala, é porque se enfiou em mim. há apenas uma porta em 1953.
e é a da entrada.


16 October 2007

caminho

de preto, por favor

Para o enterro de todos os planos, encontraram-se, anos depois, na sapataria. Ela sonhava um café de uma livraria ou uma pista de dança, em que pudesse exibir os passos aprendidos depois do término – ou no (re)início de si. Ele pensava uma fila de cinema para a coincidência de terem escolhido o mesmo filme. Mas, anos depois, o que se deu foi que tinham escolhido o mesmo sapateiro. Ele segurava o par preto de todas as festas de formatura quando ela entrou, sandálias em mãos para serem tingidas – de preto. Deu-se que o sapateiro, o profissional, não estava atrás do balcão. Estavam sós, na sapataria. Ele, tomado por um desconsolo de gestos, que se puseram a correr quando da chegada dela, desviou o olhar, tentou uma ou outra prateleira, órfão de possibilidades. Ela, mais ansiosa, antecipou o encontro de olhares, esticando o pescoço na direção dele. “É... Oi.” Ele, rápido: “Oi”. Da calçada da sapataria, os gestos e assuntos dançavam em ciranda, celebrando a fuga. “Ninguém vem atender” – ele. “Pois é” – ela. “Você veio engraxar?” – ela outra vez. “É para uma festa” – ele. “Imaginei. Você nunca gostou dos sapatos de couro” – ela, que, em seguida, dá-se conta de ter relembrado e penitencia-se mordendo o lábio inferior. “E você?” – ele. “Eu? Eu também não gosto de homens de sapato de couro. Lembra?” – ela. “Não. Quer dizer, isso eu sei. Mas... e a sua sandália? O que vai fazer?.” Ela abaixa os olhos, engole saliva uma, duas, três vezes, como se fosse verão dentro da boca. “Ah... Vou pintar de preto...” Ele: “É... Imaginei. Você não usaria uma sandália prata”. Ela: “Não, não mesmo...”
Arriscam erguer os olhos, apontando-os uns contra os outros. Ele faz os lábios tensos de quem se sabe mudo. Ela sorri, escondendo os dentes. São apenas dois segundos. O ar fica sentado entre os dois rostos. Não há volume que alcance a surdez dos corpos para o mundo. “E... você está bem?” – ele, já na torcida para que, não, o sapateiro nunca apareça. “Aham... bem... e você?” – ela, apertando os dedos dos pés uns aos outros como quem tenta agarrar-se para não voar. “Indo. Como sempre...” – ele.
Um estalo no fundo da prateleira indica que, de fato, estão numa sapataria e que, enfim, terão de entregar os sapatos. “Boa tarde. Vocês estão juntos?” – o sapateiro. Ela relaxa os pés, ele descomprime os lábios. “Não, não” – juntos. “O meu é para engraxar pra amanhã” – ele. “A minha é para tingir de preto. Quando o senhor entrega?” – ela. “Depois de amanhã” – o sapateiro. “Está bem.”
Entregam os telefones, deixam o balcão e, já na calçada, sabem que, a menos que ele se esqueça de pegar os sapatos amanhã, terão novo encontro na sapataria. Mas não. Ele não se esquecerá.


12 October 2007

volume

eu quero o silêncio.
mais nada.
só.



05 October 2007

mínimas

fábio morais

Eram duas, só duas andorinhas, na minha janela. Nós duas. A melhor sinfonia de passarinhas. Zanzavam pelo céu de baunilha, já entardecendo, vestindo de laranja cada passinho. Ritmadas, as duas andorinhas. Diminutivas imensas. Iam até o lado de lá da minha janela, feito escrevessem um poema. Voltavam ágeis para cá, as asas de planar, enganando o vento para que não fossem tão de fácil leitura. Enfeitavam um céu de sertão, duas menininhas descobrindo o que se pode voar. E tudo é vento nelas! E tudo voa! Elas dançavam separando um arzinho pra lá, outro pra cá. Um desenho. O céu todo rabiscado, uma folia.
Eram sempre as duas. Fazendo firulas, deixando as outras no chinelo, sonhando alcançá-las. O céu delas era outro. Nada cura o amor, elas sabiam. Vez ou outra, lá vem outra andorinha! Elas aceitam, ensinam um ou outro passo. “Para lá e se faz um verso. Entendeu?” Mas não. As outras eram só tentativas. Elas sabiam. Do amor, dos demônios, das cores e de como se pode arder nelas. Duas menininhas entendidas do que nunca se pode entender. Fazendo do céu um palquinho, mínimo, para a melhor dança. Elas inventam e são sempre duas.
Andorinhas perdidas, à espera dos fogos de artifício para correr. O mais rápido que se pode! Correndo, as duas passarinhas! Elas querem todo brilho, mas se já explodem... o que pode assustá-las? Como estar entre as mocinhas dançarinas de céus? Elas fazem verão, em outubro, na minha janela. Contam pra mim, que, quem sabe, são sempre duas. Tomam o céu de empréstimo da vida para desenhar o nome de duas menininhas, que espiam, pela janela ou de dentro do casulo, que, não, nada cura o amor, mas a dança... a dança é sempre tão linda.
E as duas andorinhas, sempre duas. Menininhas.


03 October 2007

dicionário

Fábio Morais, do livro "Sebo"

Eu quero a palavra que sirva para o meu sentir. Que vista bem, corte cuidado, que não se tenha de levar ao alfaiate.
Eu quero a palavra sem remendo. Que seja bonita de a gente toda virar o pescoço quando ela desfila na página. Que vá embora quando a festa termina.
Eu quero a palavra que pegue o casaco na chapelaria. Que tenha hora certa. Que ela grite e te tire o sono. Que seja escandalosa, mas de voz suave. Que seja um tormento.
Eu quero a palavra reza. Que se deite feito mantra no ouvido. Que alcance os deuses, que faça cair anjos.
Eu quero a palavra com casa no céu. Que esteja estampada no alto, seu teto no mundo. Que dispute com a lua seus olhos.
Eu quero a palavra que você veja. Que lambuze a sua tela, que não tenha nome de você gritar “sai da frente”.
Eu quero a palavra deitada no meio da sua rua. Que faça pista para o seu caminho. Que entenda de direção, destino.
Eu quero a palavra que sinta para o que eu sirvo. Que é não sei, que é de longe, que é de adivinhar o infinito.
Eu quero a palavra de você me estender a mão. Eu fico.
Eu quero a palavra que sirva para o que eu sinto.