da espera

Ela espera o dia todo pelo pôr-do-sol. Agora que ele se deita lá longe, lambuzando tudo de amarelo, não quer que venha. Não quer. Não quer pelo simples motivo de não-querer, porque esperar a beleza, mesmo que sua estadia seja tão curta, é o melhor sentimento de todos. Esperar é a hora do sonho. Ela pode imaginar – e escolher – que tons de amarelo terá, qual será a parte do corpo do sol que primeiro tocará o horizonte, esparramando em seguida o que ele tem de quente. Faz da espera sua tela em branco.
Talvez por isso prefira quase esperar a viver a paixão. Ela sabe, só ela sabe, que estará líquida sonhando os braços no sofá, mas não quando eles, de fato, estiverem lá. O suspiro está nela quando fecha os olhos, sempre sozinha, e enfeita todos os amores que espera, mas não deixa chegar.
Ela sabe que o momento de escolher os pratos do jantar é sempre mais saboroso que o próprio jantar. Os olhos fechados no travesseiro, com o amor do outro lado do mar, é, antes de tudo, o maior amor que se pode viver. É o amor por si mesmo, deitado no que ele tem de mais presente: o fantástico. Sim, pois ele, o amor, nunca trará flores no café da manhã e, se trouxer, não estarão tão bem embaladas como no sonho. O amor tentará a melhor música, mas haverá sempre um jazz, um Miles Davis encontrado depois, que seria, de fato, o que o amor precisava para dançar naquela noite. Nunca. Nunca o amor terá a paleta de cores e as sombras exatas, o chapéu bem escolhido, a direção de arte incansável de um sonho. O amor, o amor que ela sonha, só se vê em Fellini.
Não há razão para tentar?, ela pensa, despedindo-se do pôr-do-sol. Durará pouco, enfim. Ou melhor: o amor durará sempre menos que a espera, que a deliciosa espera.
*
Só o sonho é. A realidade não.


