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30 September 2007

da espera

giulietta masina, em "noites de cabíria")

Ela espera o dia todo pelo pôr-do-sol. Agora que ele se deita lá longe, lambuzando tudo de amarelo, não quer que venha. Não quer. Não quer pelo simples motivo de não-querer, porque esperar a beleza, mesmo que sua estadia seja tão curta, é o melhor sentimento de todos. Esperar é a hora do sonho. Ela pode imaginar – e escolher – que tons de amarelo terá, qual será a parte do corpo do sol que primeiro tocará o horizonte, esparramando em seguida o que ele tem de quente. Faz da espera sua tela em branco.
Talvez por isso prefira quase esperar a viver a paixão. Ela sabe, só ela sabe, que estará líquida sonhando os braços no sofá, mas não quando eles, de fato, estiverem lá. O suspiro está nela quando fecha os olhos, sempre sozinha, e enfeita todos os amores que espera, mas não deixa chegar.
Ela sabe que o momento de escolher os pratos do jantar é sempre mais saboroso que o próprio jantar. Os olhos fechados no travesseiro, com o amor do outro lado do mar, é, antes de tudo, o maior amor que se pode viver. É o amor por si mesmo, deitado no que ele tem de mais presente: o fantástico. Sim, pois ele, o amor, nunca trará flores no café da manhã e, se trouxer, não estarão tão bem embaladas como no sonho. O amor tentará a melhor música, mas haverá sempre um jazz, um Miles Davis encontrado depois, que seria, de fato, o que o amor precisava para dançar naquela noite. Nunca. Nunca o amor terá a paleta de cores e as sombras exatas, o chapéu bem escolhido, a direção de arte incansável de um sonho. O amor, o amor que ela sonha, só se vê em Fellini.
Não há razão para tentar?, ela pensa, despedindo-se do pôr-do-sol. Durará pouco, enfim. Ou melhor: o amor durará sempre menos que a espera, que a deliciosa espera.

*

Só o sonho é. A realidade não.



28 September 2007

reza

meu altar

Ela estava, de fato, bonita naquela noite. Havia se enfeitado como quem organiza o altar para a reza. Fez-se de um grande amuleto de espantar a solidão. Mas não. Na mesa do bar, os brincos mais lindos, as mãos bem cuidadas, de bom carinho, os olhos tingidos de já não serem seus, não pôde evitar o momento em que, tantos copos, teve de encher o da solidão. Não haveria já meios de deixá-la sem bebida. Tão próxima, era uma necessidade indesejada. Seria desleal mandá-la embora, afinal não tinham sido raras as vezes em que, poucos copos, ela era a única companhia.
Encher os olhos de tinta, levar o que eles têm de verde à mesa do bar, era, assim, confortável. E cada noite ganhava ares de aventura. O sapato errado e era vitória certa, pensava ela, da solidão. Para casos em que o disfarce carecia de mais que tecidos, ela carregava consigo um livro, um jazz ou a opinião ensaiada de um assunto que valesse uma opinião ensaiada.
Na mesa em que bebiam – ela e sua solidão -, não tinha altura o silêncio. Os olhos conversando com o mundo, de frente para as possibilidades, as mãos ora apertadas ora dançando sobre o bloco. Há que se ocupar quando se bebe com a solidão – e não há nada mais amável que gastar tinta para explicá-la, enquanto ela, na quinta cerveja, já fez amigas e está prestes, ela também, a partir.
Abandono. A solidão não entende de abandono. Acompanha os horários, feito tivesse despertador para, já no primeiro banho do dia, apresentar-se tão disposta para passear.
Há que se tingir os olhos. Há que se enfeitar o corpo como quem prepara o altar para a reza.
Amém.


11 September 2007

dois

ana regina nogueira - da série "purificação")

Ela escalava sua nuca. Ele a segurava pela cintura. Desafiavam, os dois, o que se usa chamar distância. A paixão não deixa espaços. No supermercado, ela subia pelo pescoço dele e, ali, na gôndola de enlatados, antecipavam a sesta do almoço de domingo. Do outro lado, uma mãe gritava o filho, deitado no chão, como quem sabe dizer eu te amo. O casal continuava lá, testando as medidas.
Há algo de arquitetura na paixão. A língua se encaixa em qualquer vãozinho. O que há de concreto mantém-se aquecido quando dentro, como um poema enterrado. A curva das costas de repente é um descanso para os braços depois da pesquisa por outros cantos.
Agora, temo que abandonem o amor na gôndola dos enlatados. Os corpos já não tão próximos, ela oferece as mãos e lança deliciosamente o pescoço para trás numa gargalhada. Ele a retoma para si, feito quem endossa. Enfia o nariz na selva castanha dela. De novo, são apaixonados na gôndola. Antecipam a sesta do almoço de domingo.
Do outro lado, a mãe ainda grita o filho - esparramado, deitado. Sabem, os dois, dizer eu te amo. O casal na gôndola lambe o contrato da paixão. Ele ainda a segura pela cintura. Ela escala sua nuca. Esperam aprender a deitar no chão.


06 September 2007

voilà mon coeur

"voilà mon coeur", de leonilson (1989))

Está bem, se você prefere, eu te conto da saudade. Mostro as minhas costas arranhadas desde 1967, desde aquela noite em que você coube todo entre minhas pernas.
Empresto meus olhos para que você me veja te procurando em cada platéia, em cada aplauso, as luzes acesas.
Se quiser, desdurmo as noites de agora e abro a janela da sala e me escancaro nela, à procura do seu desejo deitado, sem sono também, no meu céu.
Conto que, a cada paixão nova sua, eu me obriguei a me apaixonar pela vida, para manter um sorriso que, no fim da sua paixão, te traria de volta para jurar, outra vez, todas as jurinhas que eu quis escutar.
Levo os dois vestidos pretos, as (quantas?) saias rodadas e as sandálias que eu comprei pra me fazer bonita, pra te fazer me achar mais bonita. Levo o guarda-roupa todo, os meus disfarces de tão sua, as gavetas cheias de canetas já acabadas e os restos de papel arrancados dos bilhetes que eram seus, seus, seus.
Terei de apertar as cinturas, levar o comprimento dos tecidos até o joelho. Sim, porque eu tive de mudar o corte pra te despendurar dos meus cabides.
Se você achar que importa mesmo saber o que é essa saudade, posso tirar a cor das paredes, brancas quando eram suas. Removo os enfeites que me fiz pregar a fim de que, em nenhum canto, você pudesse se prender, exibindo o que eu sabia de memória: as suas costas, as suas nesgas, as suas dobradiças.
Empresto as minhas pernas e o meu quadril no samba. E você sentirá o quanto eu preciso balançar para te ver voando do meu corpo.
As contas de água, te faço pagar uma a uma e, assim, você saberá como saudade gosta de tomar banho. Lágrima feito sabonete, líquida no colo.
Você poderá ganhar todos os discos, os blues, o meu jazz, o de Miles Davis - todos de preencher a sua risada frouxa ao me ver ensaiando coreografias de (não) seduzir. Nada foi silêncio depois que você partiu.
Dou as minhas mãos à beira da aflição por saber-se tão perigosamente perto do telefone. Dou a minha memória telefônica e a minha úlcera por nunca ter esquecido os seus números.
Dou as minhas mãos no quadril da nova paixão. Confusas, caóticas, desencontradas da sua medida. Nós éramos do mesmo número, lembra? Encaixe. Te dou o desencaixe de todo o novo que eu matei.
Tranformo em travesseiro e te molho do meu choro, que é desde eu já não sei.