Ela na Janela

sem

leonilson

Ela escreve porque não tem um grande amor. Se tivesse, não compraria canetas e blocos. É triste não ter um grande amor. As pessoas que não têm um grande amor freqüentam mais as livrarias. Vez ou outra, ameaçam olhar por cima da prateleira de livros, com a vaga sensação de que, do lado de lá, naquele exato instante, alguém arrisca o mesmo olhar.

As pessoas que não têm um grande amor também podem ser vistas em bancos de concreto e nas filas do cinema. Uma vez, um amigo me contou que viu uma pessoa sem grande amor comprando flores numa daquelas bancas da Doutor Arnaldo. Ela tinha um sorriso postiço, ele me disse. E contou que, intrigado, decidiu seguir a tal pessoa. Ela atravessou a faixa de pedestres ainda inteira com o maço de amarelos e vermelhos berrantes nos braços. No canteiro, deu sinais de que iria desmontar e, na esquina, a pessoa sem grande amor já segurava o maço com uma mão só e usava a outra para enxugar as lágrimas.

Eu também soube de um caso de uma pessoa sem grande amor que freqüentava padarias. "Bom dia, Sandro. Melhorou da gripe, Oswaldo? Um pingado bem clarinho, Tina." Era tão simpática que ninguém desconfiava. Só teve um dia em que deixou o pão com manteiga pela metade e saiu sem se despedir. O pessoal estranhou, mas ninguém percebeu mesmo que era uma dessas pessoas que não têm um grande amor. Uma coisa é fato: elas gastam mais tinta de caneta que as outras, as que têm um grande amor. Sim, porque estas podem dar-se ao luxo dos bilhetes. Três ou quatro frases e fica tudo dito. Já as pessoas que não têm um grande amor precisam se dedicar às teorias. E lá se vão páginas e páginas para arranjar argumento que explique porque é que tal pessoa não tem um grande amor. E tudo nas entrelinhas, claro, porque não se pode ser tão objetivo com essa coisa de não ter grande amor.

Sei de uma moça que descobriu de cedo o problema. Lá pelos 7, desatou a gastar o dinheiro do lanche da escola com tinta nanquim, caneta bico de pena, caderno mais bonito. Depois, ela cresceu. A última vez que soube, ela estava sentada no ponto de ônibus com ares de que, a qualquer momento, o seu poderia chegar. Os que têm um grande amor, é fato, não ficam tão tensos no ponto de ônibus. Parece que têm menos o que esperar. As pessoas que não têm um grande amor, imagine, esperam tudo num ponto de ônibus. Até o cobrador é potencialmente amável.

Uma tia me disse que, quando ela era criança, uma pessoa que não tinha um grande amor desapareceu, assim da noite para o dia, depois de um vendaval. A mãe dela dizia que a tal pessoa sem amor jurava que o portão estava batendo e que não era por causa do vento. Foi para a varanda e, zupt!, desapareceu. A mãe da moça disse que era o grande amor dela no portão, mas, na dúvida, o pessoal espalhou que era o vento mesmo. "É mais fácil o vento levantar uma pessoa do que o grande amor buscar a gente no portão", minha tia disse.

Eu acredito. A última pessoa que eu conheci que tinha um grande amor era no cinema. No mais, é só pessoa que não tem grande amor, feito ela. Ela que escreve e freqüenta mais as livrarias e, vez ou outra, ameaça olhar por cima da prateleira de livros, com a vaga sensação de que, do lado de lá, naquele instante, alguém pode arriscar o mesmo olhar.

Publicado em 13 de agosto de 2007 às 15:28 por amaranta

Comentários

    • As três sessões de cinema entremeadas por café e cigarros compulsivos ganharam um outro sentido agora.
      Beijos,
      CACO
    • por Caco
    • 13.Ago.2007 às 18:04 - Permalink - Reportar
    Caco
    • Você é uma sem-vergonha, de tão bem que escreve.
      beijo, querida.
    • por Glória G.
    • 14.Ago.2007 às 10:52 - Permalink - Reportar
    Glória G.
  1. guides
    • Com vc escrevendo até parece bom não ter um grande amor. Pensando bem, talvez seja mesmo. Melhor do que meu caso, de ter perdido o "grande amor". De ter deixado escapar das próprias mãos... é, menina Audrey, preciso ouvir mais seus conselhos... tu me manque!
    • por Sara Presoto
    • 14.Ago.2007 às 17:39 - Permalink - Reportar
    Sara Presoto
    • Uma das coisas que diferenciam um verdadeiro talento literário de um reles rabiscador de palavras, é que ele consegue arrancar de um ou mais leitores a frase: ei, esse(a) cara tá falando de mim, tá falando da minha vida!
      É o que encontrei nesse post iluminador. Parabéns, Audrey.
    • por Murilo B.
    • 14.Ago.2007 às 19:26 - Permalink - Reportar
    Murilo B.
    • corta como faca
      e faz a gente rir chorando que nem personagem do nelson
      eu já tive um grande amor
      e hoje ele me disse que se acostumou com a saudade
      e eu me senti a falecida
    • por maria clara
    • 15.Ago.2007 às 17:45 - Permalink - Reportar
    maria clara
    • cansei de falar bem, hj não vou elogiar
    • por Agreb
    • 15.Ago.2007 às 19:41 - Permalink - Reportar
    Agreb
    • chego a mudar de calçada, quando aparece uma flor...

      saudade crêude!
    • por Fábio
    • 16.Ago.2007 às 12:15 - Permalink - Reportar
    Fábio
    • ai meu deus que coisa mais linda!
      adorei o texto. a d o r e i.
      parabéns, 'tocou meu coração', sem deboche.

      beijo grandão e boa semana.

      quem sabe do outro lado da prateleira... hein?

      vou arriscar. melhor que sair voando, eu acho.

      ;*)
    • por maria rachel
    • 20.Ago.2007 às 00:22 - Permalink - Reportar
    maria rachel
    • amei..........adorei.......lindo.............sem palavras para definir......sucesso.beijos
    • por camila baldon
    • 20.Ago.2007 às 17:54 - Permalink - Reportar
    camila baldon
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