E como a um homem que se descobre cego aos 40 anos, ela deixou de entender o idioma.
- O que você disse? (ela)
- Come uma bolachinha. (a amiga)
- Cambabalacinha? (ela)
E passou a responder em sua deslíngua, descabida, as horas que quisesse, as cores a seu gosto.
- De que tom é? (o amigo)
- A mãe de manhã. (ela)
Ao que recebia desolhares e ao que o mundo tinha cada vez menos azul e mais silêncio-de-o-pai-brigando. E nunca mais são sete e vinte da manhã, e sim quatro e setenta e sete do alaranjado. Noite virou meias felpudas que rasgam no calcanhar e toda conversa, o sobe-desce de sons num eqüalizador de vontades. Tanto desejo era grave, mas não trombone: trompete, com a letra "e" usando topete. O silêncio de tons azuis; sete e oitenta e dois da tarde.
E não falou mais que não fosse besuntando as frases das suas cores, feito a uma tela em branco que não tinha palavra de alguém entender.
- O amor é... (o poeta)
- A maré? (ela)
É que, como um homem que se descobre cego aos 40 anos, enfim, ela desaprendeu.