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31 August 2007

a sapatilha de catarina

bavcar

porque ela é minha quentinha. porque o aplauso é feito de suas pálpebras se fechando. porque ela é insone quando me ensina. porque ela faz manhã da minha dor de barriga, da minha dor de vida. porque ela sabe do meu medo de perder o travesseiro. porque ela, graças a deus.

*

se eu soubesse fazer o poema de catarina calar a boca.
se eu soubesse fazer o poema de unhas vermelhas,
catarina e a boca pequena.
ela ficava muda de o meu poema gritar alto:
cala a boca, catarina!
se eu soubesse escrever o poema de ela calar.
se eu soubesse escrever de ela pular,
feito fosse música,
feito a pista de dança, meu sulfite, que grita:
cala a boca, catarina!
e dança.



26 August 2007

a day in the life

leila reinert - falto retrato (2005)
no casulo

e, trinta anos depois, ela é encontrada.
reencontrada.
os cachos presos aos pés.
ela não conseguiu sair de si mesma.


*
morreu tanto que sumiu
o amor?
eu não vi.
você viu?

*
uma garrafa de eu, por favor.
líquida.
sem gás.
o que a solidão faz.
o que a solidão traz.


19 August 2007

pétalas)

as duas/invisível




13 August 2007

sem

leonilson

Ela escreve porque não tem um grande amor. Se tivesse, não compraria canetas e blocos. É triste não ter um grande amor. As pessoas que não têm um grande amor freqüentam mais as livrarias. Vez ou outra, ameaçam olhar por cima da prateleira de livros, com a vaga sensação de que, do lado de lá, naquele exato instante, alguém arrisca o mesmo olhar.

As pessoas que não têm um grande amor também podem ser vistas em bancos de concreto e nas filas do cinema. Uma vez, um amigo me contou que viu uma pessoa sem grande amor comprando flores numa daquelas bancas da Doutor Arnaldo. Ela tinha um sorriso postiço, ele me disse. E contou que, intrigado, decidiu seguir a tal pessoa. Ela atravessou a faixa de pedestres ainda inteira com o maço de amarelos e vermelhos berrantes nos braços. No canteiro, deu sinais de que iria desmontar e, na esquina, a pessoa sem grande amor já segurava o maço com uma mão só e usava a outra para enxugar as lágrimas.

Eu também soube de um caso de uma pessoa sem grande amor que freqüentava padarias. "Bom dia, Sandro. Melhorou da gripe, Oswaldo? Um pingado bem clarinho, Tina." Era tão simpática que ninguém desconfiava. Só teve um dia em que deixou o pão com manteiga pela metade e saiu sem se despedir. O pessoal estranhou, mas ninguém percebeu mesmo que era uma dessas pessoas que não têm um grande amor. Uma coisa é fato: elas gastam mais tinta de caneta que as outras, as que têm um grande amor. Sim, porque estas podem dar-se ao luxo dos bilhetes. Três ou quatro frases e fica tudo dito. Já as pessoas que não têm um grande amor precisam se dedicar às teorias. E lá se vão páginas e páginas para arranjar argumento que explique porque é que tal pessoa não tem um grande amor. E tudo nas entrelinhas, claro, porque não se pode ser tão objetivo com essa coisa de não ter grande amor.

Sei de uma moça que descobriu de cedo o problema. Lá pelos 7, desatou a gastar o dinheiro do lanche da escola com tinta nanquim, caneta bico de pena, caderno mais bonito. Depois, ela cresceu. A última vez que soube, ela estava sentada no ponto de ônibus com ares de que, a qualquer momento, o seu poderia chegar. Os que têm um grande amor, é fato, não ficam tão tensos no ponto de ônibus. Parece que têm menos o que esperar. As pessoas que não têm um grande amor, imagine, esperam tudo num ponto de ônibus. Até o cobrador é potencialmente amável.

Uma tia me disse que, quando ela era criança, uma pessoa que não tinha um grande amor desapareceu, assim da noite para o dia, depois de um vendaval. A mãe dela dizia que a tal pessoa sem amor jurava que o portão estava batendo e que não era por causa do vento. Foi para a varanda e, zupt!, desapareceu. A mãe da moça disse que era o grande amor dela no portão, mas, na dúvida, o pessoal espalhou que era o vento mesmo. "É mais fácil o vento levantar uma pessoa do que o grande amor buscar a gente no portão", minha tia disse.

Eu acredito. A última pessoa que eu conheci que tinha um grande amor era no cinema. No mais, é só pessoa que não tem grande amor, feito ela. Ela que escreve e freqüenta mais as livrarias e, vez ou outra, ameaça olhar por cima da prateleira de livros, com a vaga sensação de que, do lado de lá, naquele instante, alguém pode arriscar o mesmo olhar.


08 August 2007

poema silêncio

mira

eu quero o poema em preto-e-branco.
quero tudo bem pequeno
a moça dirigindo sem olhar para a frente.
quero dois olhos de cabíria.
eu quero o poema em preto-e-branco.
quero bem menor.
quero sem entonação shakespeariana,
sem altura,
o barulho de você no edredom.
eu quero o poema em preto-e-branco.
só um par de olhos.
quero que a cidade encubra.
quero que ninguém ouça:
meu poema não desce a rua!
não quero cinqüenta pessoas
as nuvens são minhas!
minhas e tuas!
eu quero sem coro.
(meu aplauso são seus olhos se fechando.)
quero o nosso poema, em preto-e-branco.
poema cinema-mudo.
eu não gosto de barulho.


07 August 2007

do que ela sabe escutar

ana regina nogueira

E como a um homem que se descobre cego aos 40 anos, ela deixou de entender o idioma.
- O que você disse? (ela)
- Come uma bolachinha. (a amiga)
- Cambabalacinha? (ela)
E passou a responder em sua deslíngua, descabida, as horas que quisesse, as cores a seu gosto.
- De que tom é? (o amigo)
- A mãe de manhã. (ela)
Ao que recebia desolhares e ao que o mundo tinha cada vez menos azul e mais silêncio-de-o-pai-brigando. E nunca mais são sete e vinte da manhã, e sim quatro e setenta e sete do alaranjado. Noite virou meias felpudas que rasgam no calcanhar e toda conversa, o sobe-desce de sons num eqüalizador de vontades. Tanto desejo era grave, mas não trombone: trompete, com a letra "e" usando topete. O silêncio de tons azuis; sete e oitenta e dois da tarde.
E não falou mais que não fosse besuntando as frases das suas cores, feito a uma tela em branco que não tinha palavra de alguém entender.
- O amor é... (o poeta)
- A maré? (ela)
É que, como um homem que se descobre cego aos 40 anos, enfim, ela desaprendeu.


02 August 2007

não sei

assef)

O que eu não entendo é o que me faz. É o meu medo do mar.
É porque nele eu ando nas pontas dos pés que eu acordo.
Meu desentender é meu fantástico.
Quando eu não sei, eu amanheço.
(Durmo se eu te entendo.)
Se eu soubesse, eu não teria vindo.
Meu não saber fez eu aparecer.
Quando eu passo por aqui, é só porque eu desentendi.
É o medo do mar que me faz acordar.
Concordo com o desentendido. Eu sinto. Muito.