Em vinte e dois de julho de dois mil e sete, era Natal. Ela levou sua perfumaria para a praça. A praça era uma mulher deitada com árvores que nasciam na cintura. Lá, dormiam tentativas de fada e de desilusão. Mas, como era Natal, ela levou sua perfumaria para a praça. Arranjou, um a um, os vidrinhos de suas verdades. Cheirando a mate verde, o mais bonito era o pote da solidão. Deixou-o, em sua vitrine, ao lado do vidrinho da expectativa - bem fechado, pois sim, uma gota dela e já não se sentiam os outros perfumes. Feita a vitrine, ela passou a abrir, a princípio calmamente, o pote da sociabilidade, o outro da ternura e seu cheiro pueril, até que, já não tão calma, deixou cair o da euforia e, agora descontrolada, acabou por arrebentar, usando a força desde os ombros, o vidrinho da solidão. A vitrine desfeita e derramada toda a sua perfumaria, ela ganhou aplausos. A praça toda ria, cantava e cheirava aquela mistura de perfumes que ela não previa mostrar.
Era Natal, afinal, pensou para se consolar. E o que fazer se a platéia gostou do cheiro? No dia seguinte, teria apenas de refazer a vitrine e voltar a encher, gota a gota, cada vidrinho. Decidiu, por fim, aproveitar dos cheiros. Os outros, como não?, também tinham aberto alguns de seus potinhos e ela não era a única que dançava e rodava e girava no céu da praça.
Não pôde deixar de olhar, é fato, vez ou outra para os cacos do vidrinho da solidão. Tinha deixado no ar o cheiro manso de mato verde, que a levava para tardes e tardes e tardes que não eram de Natal. Tardes dessas que ardem. E, então, mais ela dançava e girava e rodava e via, agora já não tão vez ou outra, os cacos do vidrinho da solidão. E rodava e girava e os caquinhos. E rodopiava e gritava alto e o mate verde manso... até que decidiu: tinha mesmo era vocação para horizonte. E girando, rodopiando, gritando, deitou-se nos cacos da solidão.
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É bonito, mas é um corte.
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É tão dentro de si, que chega a ser fora.
É uma implosão.