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30 July 2007

o nanquim e a maré

marcos piffer (1962)

de longe
porque eu tenho medo
antes que ele venha e me atropele
antes que ele venha com sua saia branca de espuma
de longe
o meu mar é do lado de lá
a minha maré

24 July 2007

ela vai

respirar lentamente
sentir o mundo
entrando pelo nariz

só isso
mais nada
só isso
mais nada
só isso
mais nada.

23 July 2007

um corte

marina abramovic

Em vinte e dois de julho de dois mil e sete, era Natal. Ela levou sua perfumaria para a praça. A praça era uma mulher deitada com árvores que nasciam na cintura. Lá, dormiam tentativas de fada e de desilusão. Mas, como era Natal, ela levou sua perfumaria para a praça. Arranjou, um a um, os vidrinhos de suas verdades. Cheirando a mate verde, o mais bonito era o pote da solidão. Deixou-o, em sua vitrine, ao lado do vidrinho da expectativa - bem fechado, pois sim, uma gota dela e já não se sentiam os outros perfumes. Feita a vitrine, ela passou a abrir, a princípio calmamente, o pote da sociabilidade, o outro da ternura e seu cheiro pueril, até que, já não tão calma, deixou cair o da euforia e, agora descontrolada, acabou por arrebentar, usando a força desde os ombros, o vidrinho da solidão. A vitrine desfeita e derramada toda a sua perfumaria, ela ganhou aplausos. A praça toda ria, cantava e cheirava aquela mistura de perfumes que ela não previa mostrar.
Era Natal, afinal, pensou para se consolar. E o que fazer se a platéia gostou do cheiro? No dia seguinte, teria apenas de refazer a vitrine e voltar a encher, gota a gota, cada vidrinho. Decidiu, por fim, aproveitar dos cheiros. Os outros, como não?, também tinham aberto alguns de seus potinhos e ela não era a única que dançava e rodava e girava no céu da praça.
Não pôde deixar de olhar, é fato, vez ou outra para os cacos do vidrinho da solidão. Tinha deixado no ar o cheiro manso de mato verde, que a levava para tardes e tardes e tardes que não eram de Natal. Tardes dessas que ardem. E, então, mais ela dançava e girava e rodava e via, agora já não tão vez ou outra, os cacos do vidrinho da solidão. E rodava e girava e os caquinhos. E rodopiava e gritava alto e o mate verde manso... até que decidiu: tinha mesmo era vocação para horizonte. E girando, rodopiando, gritando, deitou-se nos cacos da solidão.

*

É bonito, mas é um corte.

*

É tão dentro de si, que chega a ser fora.
É uma implosão.

marina abramovic


16 July 2007

de açúcar

luiz ernesto

de manhã, uma chuva encostou em mim.
era brava, de não fazer silêncio.
trouxe meus pertencezinhos para dentro.
a mãe assou pão e não deixou sair.
estou com 23 agora.
sinto o cheiro da fornada.
a mãe anda pela casa.
e eu não posso sair.

11 July 2007

etílica

meu estado de sentir é quase um coma alcoólico.
tenho amnésia de amar.
você viu quando eu escrevi nos olhos que te queria?
será que eu escrevi?
é desencontro de pernas.
e eu já não sei quando você me deu a mão.
deu?
tem dia eu lembro um pouco.
meu sentir é líquido.

10 July 2007

ciranda para o ladrão

da primeira vez, foram dois ventrículos e um átrio. o esquerdo.
da segunda, levou a aorta.
o que piora é a ventania que entra pelo umbigo.
vou deixar meu endereço e espero que você devolva.
afinal, era meu o coração.
bela cintra, oitavo andar, consolação.

02 July 2007

ou isto.

assef
uso cera de abelhas para arrancar palavras.
meu sêmen é meu nanquim.
meu verbo trepou com o seu.
eu gozei na sua frase.