Desde muito nova, já sabia que havia algo de errado com ela. Talvez não fosse errado, mas era diferente. Isso era. Preferia estar dentro do armário de madeira, sentada na prateleira de cima, com o rosto escondido entre os casacos de lã que quase não saíam de lá. Calada, no escuro, os braços abraçavam os joelhos num gesto de carinho que já procurava. O armário, o cheiro da madeira e dos casacos um tanto empoeirados eram companhias agradáveis. Falavam pouco e ela gostava de silêncio.
Preferia também estar debaixo da cama, entre as caixas de sapato e outros guardados que a mãe usava colocar lá. Ficava a olhar o colchão com suas estampas de flores grandes e desbotadas. Mais tarde, tomou gosto pela janela. As estrelas também eram de poucas palavras e fáceis de observar de cima da cômoda também de madeira que a mãe tinha colocado no quarto.
Talvez alguém já tivesse estranhado seu silêncio em casa. Todos muito falantes que eram. Mas ela não ligava: sabia que era diferente. Sentia urgência. Como se viver fosse sempre uma emergência que obriga a gente se esconder debaixo da cama. No armário, na janela, ela podia desapressar, estancar a urgência de tudo o que escorria rápido entre as mãozinhas também tão apressadas.
Para ajudar, quando cresceu, o pai deu-lhe uma máquina de escrever e uma enciclopédia. Passava as tardes a copiar longos trechos em papéis que o pai trazia do escritório. Mas nada diminuía a urgência. A mãe deu-lhe um caderno de capa dura. Na escola, a professora disse para copiar as redações no tal caderno. Era para acalmar a menina, disseram. Com poesia, a urgência não passou.
Já era moça, os cabelos compridos descompromissados, as mãos ainda ágeis, a letra bem feita, rápida e firme, quando a urgência assumiu tamanha intensidade que a mãe decidiu levá-la ao cardiologista. Sim, porque o problema era de coração, deduziu a mãe. O médico pediu eletrocardiograma, hemograma, raio X e retorno para o dia seguinte.
No consultório, estendeu secamente o exame contra a luz e constatou: “Ela tem uma sirene no lugar do coração. É raro. A medicina sabe pouco ainda sobre as pessoas que têm sirenes no peito. Sabe-se apenas que vivem de forma descompassada, superadas pela urgência. Não existe cura. Vai viver sempre em estado de emergência e desenvolver gostos peculiares por tudo o que pode conter ou intensificar o desassossego”.
A menina se reservava a observar, calada e apressada para sair dali e se encontrar no concreto da cidade. Já sabia que era diferente mesmo. Não era novidade. A sirene? Escutava a todo momento e, por isso, preferia o silêncio, o céu, os vôos e as paixões secretas e desenfreadas. Quando o médico estendeu o braço para pegar a caixa de lenços de papel a fim de que a mãe pudesse enxugar as lágrimas que escorriam pelo rosto, a menina viu uma nuvem que brincava na janela. “Como parece um lírio!”, pensou antes de voar.
Amei.