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21 June 2007

um meu

cláudia andujar)

inventa um passo de dança pra me convencer a levantar do sofá.
planeja me assustar quando eu abrir a porta do banheiro.
tem salário, cumpre horário.
não se atrasa - exceto quando precisa ensaiar uma idiotice.
tem dia me lê poesia.
não há vaga difícil para estacionar.
desacredita em sapatos de couro. acredita em meias felpudas.
faz planos de acordar cedo nas férias para caminhar na praia - mas não.
estala os dedos do meu pé - contra minha vontade.
esquece a luz da cozinha acesa - e volta.
entende que eu não sei, mas deu vontade de chorar.
tem despertador e relógio adiantado.
apostaria corrida comigo nas costas.
aparece com gérbera-vermelha-sangrando em dia de nada.
anoitece com o braço na minha cintura.
inventa um passo de dança pra me convencer a levantar do sofá.

18 June 2007

De quando João conheceu Carlos

(em Copacabana)
marilá dardot)

- Mas ele sabe onde está?
- Não.
- Ele sente?
- Não. É uma coisa, João, como um poste, um banco...
- Psiu! Eu estou tentando falar com ele.
- Mas ele não escuta...
- Psiu!
João passou a mão na cabeça de Carlos, ajeitou-lhe os óculos, pegou na mão, deu-lhe um abraço.
- Ele não tem vida, João.
- Mas ele me vê. Não?
*

Para Aline, que, como João, pergunta.

11 June 2007

chagall

pensei assim: eu era floco de algodão, mas não de voar. eu era floco de algodão arrumadinho. você vinha, bagunçava tudo. daí eu era floco de voar. uma manhãzinha.
*

tinha um você no meu olho antes de dormir. demorou de ir embora. quando acordei, era porque fez rir o olho. foram três copos de água, banho quente, café na padaria e óculos de sol. mas você nem foi embora.
*

a amiga de unha vermelha disse que tinha brilho no meu olho. ela viu você deitado lá. eu gosto de saber que ela sabe. e que vai me dar a mão quando você levantar do meu olho e doer. ela sabe que meu olho vai fazer saudade.
*

tem dia dói. tem dia passa.
*

o que eu achei bem lindo foi você desenhando no ar. a mão separava um ventinho aqui, jogava um espaço vazio ali, rabiscava nada com o dedo e era um desenho. eu vi.
*

tem dia dá medo de nem começar. mas eu mostrei "coração - isto é, estes pormenores todos". emprestei um pormenor meu pra você. será que quando a gente empresta a outra pessoa pode nem não levar pra casa? eu queria que você me levasse um tantinho. a minha miudeza.
*

e se eu deitar no olho com você?

07 June 2007

urgência

ela)

Desde muito nova, já sabia que havia algo de errado com ela. Talvez não fosse errado, mas era diferente. Isso era. Preferia estar dentro do armário de madeira, sentada na prateleira de cima, com o rosto escondido entre os casacos de lã que quase não saíam de lá. Calada, no escuro, os braços abraçavam os joelhos num gesto de carinho que já procurava. O armário, o cheiro da madeira e dos casacos um tanto empoeirados eram companhias agradáveis. Falavam pouco e ela gostava de silêncio.
Preferia também estar debaixo da cama, entre as caixas de sapato e outros guardados que a mãe usava colocar lá. Ficava a olhar o colchão com suas estampas de flores grandes e desbotadas. Mais tarde, tomou gosto pela janela. As estrelas também eram de poucas palavras e fáceis de observar de cima da cômoda também de madeira que a mãe tinha colocado no quarto.
Talvez alguém já tivesse estranhado seu silêncio em casa. Todos muito falantes que eram. Mas ela não ligava: sabia que era diferente. Sentia urgência. Como se viver fosse sempre uma emergência que obriga a gente se esconder debaixo da cama. No armário, na janela, ela podia desapressar, estancar a urgência de tudo o que escorria rápido entre as mãozinhas também tão apressadas.
Para ajudar, quando cresceu, o pai deu-lhe uma máquina de escrever e uma enciclopédia. Passava as tardes a copiar longos trechos em papéis que o pai trazia do escritório. Mas nada diminuía a urgência. A mãe deu-lhe um caderno de capa dura. Na escola, a professora disse para copiar as redações no tal caderno. Era para acalmar a menina, disseram. Com poesia, a urgência não passou.
Já era moça, os cabelos compridos descompromissados, as mãos ainda ágeis, a letra bem feita, rápida e firme, quando a urgência assumiu tamanha intensidade que a mãe decidiu levá-la ao cardiologista. Sim, porque o problema era de coração, deduziu a mãe. O médico pediu eletrocardiograma, hemograma, raio X e retorno para o dia seguinte.
No consultório, estendeu secamente o exame contra a luz e constatou: “Ela tem uma sirene no lugar do coração. É raro. A medicina sabe pouco ainda sobre as pessoas que têm sirenes no peito. Sabe-se apenas que vivem de forma descompassada, superadas pela urgência. Não existe cura. Vai viver sempre em estado de emergência e desenvolver gostos peculiares por tudo o que pode conter ou intensificar o desassossego”.
A menina se reservava a observar, calada e apressada para sair dali e se encontrar no concreto da cidade. Já sabia que era diferente mesmo. Não era novidade. A sirene? Escutava a todo momento e, por isso, preferia o silêncio, o céu, os vôos e as paixões secretas e desenfreadas. Quando o médico estendeu o braço para pegar a caixa de lenços de papel a fim de que a mãe pudesse enxugar as lágrimas que escorriam pelo rosto, a menina viu uma nuvem que brincava na janela. “Como parece um lírio!”, pensou antes de voar.