Ela na Janela

saudade nº 2

sandra cinto - da série noites de esperança (2002)
Querido irmão,
eu não queria te chamar "querido". Queria algo assim menos comum, feito essa vontade de ter te conhecido antes - antes de eu ser a caçula. Eu sempre quis te surpreender, afinal. Quando percebi que você não trocaria o rosto sisudo por uma gracinha minha, calei. Foi um tempo de sem-palavra. Foram anos de esperar no corredor, no dia do aniversário, que viesse o seu abraço: você vinha, os braços burocráticos e o sumiço no fim do corredor; eu, para o banheiro, chorava sem acender a luz, lá dentro - e era de felicidade. "Está feito: um abraço do Thiago." Então aniversário era mesmo importante.
Agora você me oferece os braços e eu estou bem tão longe. É como se estivesse me entregando de novo, aos 9 ou 10, a caixa de giz de cera intacta - você sempre foi tão cuidadoso com o material escolar -, que até hoje eu não usei. Seu abraço que eu não tenho é a caixa de giz de cera - minha, e, intacta, guardada na terceira gaveta da cômoda.
Penso se não seria mais prudente deixar a casa e garantir que eu posso desenhar com este giz. Deixar a casa. E aceitar o seu convite de ir ver o mar em Natal. Eu sei, desde menina (eu cresci, Thi?), que a gente não ganha todo dia giz de cera bonito assim. Não estou grande para deixá-lo guardado? Se eu queria tanto. Dentro de mim, você bem sabe, é sempre manhã e tem aquela ansiedade de não chegar atrasada à escola, e não esquecer de devolver o Gullar à bibliotecária, e estudar a partitura para não chegar esquecida ao conservatório. Do meu lado avesso, o céu é azul-baunilha, tem flor laranja-bocó e graminha verde-saudade. E é sempre aquele dia de a gente sentado na cama ouvindo "come rain or come shine", em silêncio, o giz de cera na gaveta. Feito a vida deitada no meu colo.
Eu não sei - e vou esperar resposta em sua carta - se a gente tem direito de deixar a vida sentadinha assim aí. As perninhas cruzadas, amuada, pobrezinha da vida. Eu queria era levar a vida pra ver o mar, dar banho de sol na vida. Ela ficava toda coradinha e, no fim da tarde, a gente deixava a vida ouvir um pouquinho de jazz até ir amolecendo assim, bem docinha no meu colo. Você também queria, não é, Thi? E quando a vida dormia, a gente ia sonhar se o mar ia acordar azul-silêncio ou azul-grito.
Eu não sei - e outra vez, você me diz, tá? - se é bom a gente não ter essas dúvidas - de que cor o mar vai ser amanhã? Eu nem sei se é bonito ficar assim tudo tão concreto quando a gente abre a janela. Coisa que eu sei bem é que não quero deixar seu abraço na terceira gaveta da cômoda.
Se a gente fosse ver o mar em Natal, ia ser todo dia aniversário.
Tem a saudade,
audrey

Publicado em 03 de maio de 2007 às 22:49 por amaranta

Comentários

    • Tão bonita você.
      Só mesmo mãos tão pequenas e branquinhas para escrever assim.
      Azul-baunilha me causou dúvida.
    • por Glória G.
    • 04.Mai.2007 às 08:51 - Permalink - Reportar
    Glória G.
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