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29 May 2007

come rain or come shine

cristiano mascaro

você tinha razão: não era ele, era a possibilidade. e eu só consigo pensar no b.b. king perguntando "won't that be fine?". e tem esse copo de vinho vazio no chão da sala, a luminária acesa no canto e meu cachecol preto. tudo rindo da possibilidade. e fazia tempo que eu não chorava. não por isso. me deu essa vontade de escancarar a janela. eu já tinha esquecido das minhas costas no chão de madeira da sala. e tem esse sofá vermelho que eu tinha enchido com as minhas pernas e o seu braço esquecido na minha cintura.
daí eu tento olhar a lua e ela tá escondida no prédio e, puta que pariu, eu nunca soube nada de uísque e de tomar um porre sem escrachar no riso. era a possibilidade. e esse copo vazio de vinho me olhando, feito quem diz: "ok, você de volta". nada enche o sofá vermelho. nem que eu tivesse um cigarro de metro ia esconder essa angústia. em algum lugar, a vida deve estar rindo.
talvez eu nunca conte que eu já tinha te deitado no sofá inteiro. e talvez nunca seja o sábado à tarde de você esquecer o braço na minha cintura. é como se o b.b. king estivesse gritando só de sacanagem porque sabe que eu jamais teria feito a pergunta. e esse celular que não pára de tocar. nunca foi útil mesmo, nunca tocou pra mim. fica essa coisa idiota de olhar pra ele de soslaio e ele, aqui: "nada de possibilidade".
você tinha razão: não era ele. era o sábado à tarde, dois copos, pernas e braços no sofá vermelho com essa guitarra enchendo a sala. eu já nem consigo chorar. vou lembrar o chão de madeira. eu, deitada, voltei.

25 May 2007

eu não tenho guarda-chuva

alexandre catan

os meus guarda-chuvas sempre tiveram predileção por esconderijos. talvez por isso a mãe os tenha comprado tantas vezes. as mães sabem desde antes da nossa relação com guarda-chuvas. quando chove, eu me embrulho de mim. viro silêncio atravessando a avenida, de leve feito o cabelo não estivesse se desfazendo. depois vem o frio e todo o resto dorme. eu perco a pressa quando chove: sou amanhecendo.
às vezes penso que eu também deixei de comprar guarda-chuvas desde que você apareceu na esquina de casa, segurando um preto e correndo pra não deixar chover em mim. mas choveu. você sempre se atrasava. eu não liguei da chuva - me entendo com ela. você não. foi embora e não voltou mais. talvez de vergonha. não: foi de susto. você nunca entendeu que eu não preciso de guarda-chuva. você, tão nada, nunca entendeu de poesia.
e, depois, eu não quis mais um guarda-chuva porque o que eu acho mais bonito é quando a gota cai exatamente no lugar da lágrima. daí eu choro chuva. e sempre que chove, eu torço pra que ela caia bem aqui, debaixo do olho. é por isso que eu não tenho guarda-chuva. é pra chover sua lágrima em mim.

21 May 2007

ana de açúcar

salvador cordaro

ana doce, menina flor,
sonhei com você esta noite. era uma festa e éramos vizinhas. sem saber que você festejava, fui eu pedir uma xícara de açúcar. você à porta, o cabelo com presilhinhas coloridas feito aniversário. você ainda tinha menos de um metro e sessenta e eu logo baixei a xícara à espera do açúcar. baixei de triste. baixei também os olhos. você ainda sorria e eu tinha medo. medo de que você não me emprestasse o doce, que você não me mostrasse a sua festa. mas você sorria. os dentes ainda bem brancos e o cabelo cheio de presilhinhas coloridas. entrei na casa e um cachorro grande, daqueles que me fazem mais medo, vinha correndo. você segurou minha mão. nem disse que era de não dar medo, mas eu ouvi. deixei a xícara na mesa - você tinha uma toalha de flores miúdas num fundo branco. era bonita a sua casa. tinha um cheiro forte de madeira e terra feito floresta tomando chuva. fomos até a janela. a gente olhou longe de lá: ninguém rabiscou o silêncio. você não me deu xícara de açúcar, não me mostrou a sua festa. nem era uma festa, afinal. era só amanhecendo.
e você (da janela) sorria.


14 May 2007

z de silêncio

salvador cordaro

um dia eu cansei de alaranjado e pintei tudo de branco. uma joaninha pousou e fez um silêncio agudo. como quando eu preparo aquele risoto pra te esperar, pra esperar teus olhos fingindo que eu já te esqueci. feito um cachorro molhado.

*


eu pintei tudo de branco e você suja tudo com a sua falta.

*


até comprei um banco, mandei colocar meu nome na fachada. era meu o banco do josé que você não viu.

*


depois de tudo, o jeito vai ser ir embora pra sabáudia. lá, eu farei torta de banana e risoto. e você nem vai ver.

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(o moraes me mandou imitar o zero. obedeci. e confesso a timidez: sou fã desde muito tempo... o zero pode imitar a salomé?)

08 May 2007

daqui

faces

Quando cheguei, o porteiro me entregou um envelopinho. Tinha duas folhas secas e uma semente. "Para você não esquecer da leveza." Fez bem. Saí com o envelopinho na mão, equilibrando a semente na folha sulfite dobrada. Leveza deve ser assim.

*

Foram três bolachas e uma xícara de chá quentinho. Depois eu deitei no chão da sala. A gente ouviu aquele cd de jazz, você leu o livro em inglês e eu fui dormir.

*

No sonho, a menina morena cortava meu peito com um bisturi. Não era feio o tanto de sangue. Ela arrancava meu coração e eu ficava quietinha olhando. Nem não doía. Ela apertava meu coração bem forte. Uma, duas, três vezes. "Pronto, voltou a bater."

*

Às 9h, você ainda estava dormindo. Eu pensei como é bom precisar ter cuidado pra não acordar alguém logo cedo. Deve ser assim a gente no céu.

*

Eu ainda gosto do som de eu sozinha. Todo pensamentinho é só meu. É o som de eu escrevendo. Você ouve?

*

O pai ligou e disse que não é pra eu ficar triste, porque ele é forte. Eu sei. A gente tem as mesmas mãos, o calo na direita, a unha branca de forte. Eu sei. Eu só disse foi eu te amo.

*

Fazia tempo que eu não via o pôr-do-sol. É bonito daqui.

03 May 2007

saudade nº 2

sandra cinto - da série noites de esperança (2002)
Querido irmão,
eu não queria te chamar "querido". Queria algo assim menos comum, feito essa vontade de ter te conhecido antes - antes de eu ser a caçula. Eu sempre quis te surpreender, afinal. Quando percebi que você não trocaria o rosto sisudo por uma gracinha minha, calei. Foi um tempo de sem-palavra. Foram anos de esperar no corredor, no dia do aniversário, que viesse o seu abraço: você vinha, os braços burocráticos e o sumiço no fim do corredor; eu, para o banheiro, chorava sem acender a luz, lá dentro - e era de felicidade. "Está feito: um abraço do Thiago." Então aniversário era mesmo importante.
Agora você me oferece os braços e eu estou bem tão longe. É como se estivesse me entregando de novo, aos 9 ou 10, a caixa de giz de cera intacta - você sempre foi tão cuidadoso com o material escolar -, que até hoje eu não usei. Seu abraço que eu não tenho é a caixa de giz de cera - minha, e, intacta, guardada na terceira gaveta da cômoda.
Penso se não seria mais prudente deixar a casa e garantir que eu posso desenhar com este giz. Deixar a casa. E aceitar o seu convite de ir ver o mar em Natal. Eu sei, desde menina (eu cresci, Thi?), que a gente não ganha todo dia giz de cera bonito assim. Não estou grande para deixá-lo guardado? Se eu queria tanto. Dentro de mim, você bem sabe, é sempre manhã e tem aquela ansiedade de não chegar atrasada à escola, e não esquecer de devolver o Gullar à bibliotecária, e estudar a partitura para não chegar esquecida ao conservatório. Do meu lado avesso, o céu é azul-baunilha, tem flor laranja-bocó e graminha verde-saudade. E é sempre aquele dia de a gente sentado na cama ouvindo "come rain or come shine", em silêncio, o giz de cera na gaveta. Feito a vida deitada no meu colo.
Eu não sei - e vou esperar resposta em sua carta - se a gente tem direito de deixar a vida sentadinha assim aí. As perninhas cruzadas, amuada, pobrezinha da vida. Eu queria era levar a vida pra ver o mar, dar banho de sol na vida. Ela ficava toda coradinha e, no fim da tarde, a gente deixava a vida ouvir um pouquinho de jazz até ir amolecendo assim, bem docinha no meu colo. Você também queria, não é, Thi? E quando a vida dormia, a gente ia sonhar se o mar ia acordar azul-silêncio ou azul-grito.
Eu não sei - e outra vez, você me diz, tá? - se é bom a gente não ter essas dúvidas - de que cor o mar vai ser amanhã? Eu nem sei se é bonito ficar assim tudo tão concreto quando a gente abre a janela. Coisa que eu sei bem é que não quero deixar seu abraço na terceira gaveta da cômoda.
Se a gente fosse ver o mar em Natal, ia ser todo dia aniversário.
Tem a saudade,
audrey

01 May 2007

eu não sei segurar um copo de uísque

brígida baltar
Um dia, eu sentava na frente de um sujeito e ia dizendo: "Quando me colocaram essas asas de anjo, eu já tava aqui, e sem copo de uísque, claro, porque eu não sei segurar um copo de uísque; queria ser dessas mulheres que entram no bar, pedem uma dose pura ou com gelo, não importa, bebem e conseguem ir embora bem, sem a cabeça zonza; na verdade, eu sempre fui fraca pra álcool, nunca gostei muito; deve ter alguma ligação com essa mania de simetria: não posso ver uma linha torta que fico aflita; mas daí a me darem asas de anjo, é demais; odeio esse cinto de castidade e todo esse papo de 'que meiga', 'que doce' o tempo todo; eu fiz por merecer, tá certo: adoro falar de pegar delírio em nuvem, não posso cruzar com uma flor que já roubo e tenho menos de um metro e sessenta; tudo bem, tudo bem, vez ou outra é até um charme, mas o que mais me importa é entender de mexer os ombros e saber que ninguém tem os mesmos motivos que eu; sim, porque eu topo sapatos verdes pelo lúdico (aponto os pés, cruzados no colo), por achar que, com sapatos verdes, os dedos ficam divertidos e eu posso rir de canto de boca quando olho pra eles e as unhas pintadas de laranja-bocó; as outras e seus sapatos não têm esse motivo, eu sei. e não acho que é pretensão minha, não; acho que é motivo diferente, só isso; meu motivo é o intenso; uma amiga minha, de cabelos cacheados (faço o cacho com as mãos), diz que esse sentimento de inadequação é da alma dos escritores; foi uma massagem no ego isso, porque eu admiro os escritores, mas tem a dor: eu não sei segurar um copo de uísque, eu não sei tomar um porre (acendo um cigarro); eu não sei nada por uma noite só; falta um beatnik assumido em mim; fico nessa de danças alopradas, gargalhadas que engolem as pessoas, som alto pela casa, os cadernos e as canetas de poesia; mas o que estraga tudo é não saber segurar um copo de uísque, é essa inaptidão pra modernidades; ou só falta assumir: eu desembesto, saio dançando até doer os ombros, me enrosco nas paredes e vou pra paris; sim, eu já tenho o que preciso pra ir a paris - tenho até o medo de ir a paris e também não ficar satisfeita com o estar lá; às vezes eu acho que é tudo uma desculpa, que eu coloquei do outro lado do mar o tanto que eu queria aloprar; outra amiga, de cabelo cacheado também, mas comprido (desenho o comprido com as mãos), tem uma turma que tira a roupa e fica nua conversando; eu fico pensando que eu não ia conseguir; ia ficar toda pueril, achando bem angelical as pessoas sem roupas; e depois ia ficar com essa ressaca moral que me impede de me apaixonar, que me impede de ousar uma declaração; no fundo, é tudo medo de rejeição: como é que alguém pode não querer essa pessoa incrível e dançante? como? como? (chacoalho o sujeito segurando seus ombros com força); e eu ainda acho que não é prepotência (pausa pra fumar); é essa história de ter motivos diferentes: eu queria um apaixonado pra ligar dear prudence de madrugada e deitar no chão de madeira, cantando pra ele, sabe?; eu queria um apaixonado pra desenvolver minha teoria da supremacia beatles, pra explicar porque é que eu acho que samba é caso pra uma noite só, que o importante é começar uma coleção de jazz aos 22, feito uma aposentadoria privada; eu tenho um amigo, que é careca, e que diz que isso é ser poser; eu queria que você soubesse que é bem diferente disso, porque tem essa inaptidão pra modernidade desde sempre; não é importante que você fique convencido (olho para o chão, coloco as mãos sobre o joelho); eu não quero agradar; só queria mesmo era mostrar minhas unhas pintadas de laranja-bocó, os 94 cds, as três prateleiras de livros, que eu troco por uma tarde de gargalhadas sem remorso (aperto as mãos); só desembrulhar essa confusão de vontades, o desgosto pela seriedade e o desejo de leveza; mas se eu soubesse segurar um copo de uísque seria tudo mais fácil". Daí eu levantava, saía andando e deixava o sujeito me olhando assim.