
O que Amaranta mais gosta é de estar em livrarias. Todas aquelas estantes, cheias de palavrinhas. Acha bonito. Fica em silêncio, enche os braços, como se estivesse a carregar relíquia. Nunca gostou que rabiscassem os livros. Os seus, guarda-os um a um na estante com a discreta anotação de seu nome (para que não se esqueça de que é seu e, talvez, de que aquele é seu nome), a estação, o ano e o local em que os encontrou. Mais que isso, ela não gosta.
Quando se apaixonou, Amaranta se esqueceu de ir à livraria. Perdeu a hora, faltou, não foi, deslembrou. Vez ou outra, visitava a estante para esconder flores dentro dos livros - sabia que seriam úteis (tem álgebra na delicadeza de Amaranta). Marcaram de se reencontrar quando ela desapaixonasse. E assim foi. Amaranta, a sem paixão, voltou à livraria. Carregava agora, como um cachecol de lã pesada, uma dor. Escolhiam seus livros, as duas, e liam juntas em casa.
A dor era quietinha. Falava pouco, como Amaranta antes da paixão. Era bom. As duas, juntas, viviam a tentar fazer dormir cada palavra. Escreviam, depois de ler, textos no diminutivo, que deixavam toda caligrafia infantil. Quietinhas, as duas, desfilando seus vestidos escuros, seu gosto pelo preto-cinza-branco.
Foi então que fez verão. A dor já esquentava demais o pescoço de Amaranta, fazia suar seus ombros. Ela não gostava. A dor só lhe servia em dias de livraria com café e estantes separadas pelo vento do ar-condicionado. Fora de lá, era ruim. E começaram a discutir. Amaranta queria, pois, que a dor procurasse outros ombros, os que não estivessem em verão. Vestia até lilás brilhante para descombinar a dor, para avisá-la que já não era mais bem-vinda. E ria alto nos cafés e ia para as festas vestindo sapatos verdes de verniz e cantava enquanto tomava banho e já não ficava tão sozinha porque tinha amigos que gostavam de filme-preto-e-branco e de brincar de girar girar girar girar... e a dor deu para gritar também. Competiam. Amaranta e sua dor disputavam a atenção do mundo, com gargalhadas que terminavam quase sempre em lágrimas.
Amaranta, assim tão sem saída, acordou quietinha de madrugada. Fez-se de descabida e, na ponta dos pés, andou até o corredor. Acendeu um cigarro, cuidando para que nem mesmo o isqueiro pudesse acordar a dor. Voltou para o quarto e a encontrou nos lençóis. Enrolando os dedos em mechas de cabelo, foi, mais uma vez, à sala. Sorriu com o canto da boca, com um certo prazer de quem se descobre linda. Atravessou o vão de si mesma e, de volta ao quarto, apertou o travesseiro, a princípio de leve, contra o rosto da dor. Minutos depois, já era forte. Suas unhas vermelhas afundavam no travesseiro e, do outro lado, a dor gritava cada vez menos. Até o silêncio. Amaranta, agora, sorria no sofá e, apesar de linda, não podia disfarçar a solidão.