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27 April 2007

dois passos

"casa de abelha", brígida baltar

1. aumentar o volume do som até ficar surdo pra pensamento triste.
2. ficar de costas para a janela, grudando o corpo na parede e inclinando-o até a cabeça ficar ao contrário e do lado de fora.
ou descabelar o mundo.

20 April 2007

saudade nº1

"postal" [2004], fabio morais
Tem a saudade. Lembro de, aos nove anos, ter escrito na redação da Escola São José que sentia falta. Assim sem complemento, como são as faltas. A professora Helena Maria ligou para a mãe e o pai. Pediu que comprassem um caderno bonito, de capa dura e grande, que não fosse de brochura feito os das aulas. Que deixassem comigo sem compromisso ou regra de escola. Compraram canetas também, de tinta mais linda. Em seguida, vieram a Olivetti e a escrivaninha. E a enciclopédia Barsa e a conta na Livraria e Sebo Paraná. Goethe a R$ 2, "São Bernardo" a R$ 3, mais o Gullar e alguns da coleção Vagalume roubados da biblioteca. Agora, tem essa estante cheia de livros aqui. E tem a saudade.
Ninguém mais liga para a mãe e o pai. Não melhora ter a coleção de canetas que é desde a casa em Cambé. Não muda a Olivetti elétrica, embrulhada em plástico bolha quando da chegada do computador. O caderno grande de capa dura sumiu entre um caminhão de mudança e outro. De tudo, a mãe ainda lembra a redação da Escola São José, o pai, a conta na Livraria e Sebo Paraná.
Eu ainda sinto falta. Falta sem complemento. Ligo eu mesma para a locadora: peço que me tragam dois do Bergman - "'Cenas de um Casamento' e 'Morangos Silvestres' eu já vi demais", aviso -, um Truffaut que é pra deixar suave a noite e o que tiver do Takeshi Kitano ("Só tem 'Dolls'", a moça vai dizer. Eu: "Serve".). Talvez no sábado eu me leve ao cinema para ver um preto-e-branco no café do Cinesesc. Em seguida, recorto as fotos de que mais gosto do jornal e decoro as paredes do quarto. Visito o caderno de poesia, agora miúdo e ainda de capa dura, que me dei aos 16. Abri contas imaginárias e sem limites nas livrarias de São Paulo. Sempre espero ser chamada de "senhorita" por algum vendedor, como fazia o casal de velhos da Livraria e Sebo Paraná.

12 April 2007

kind of blue

man ray
O que Amaranta mais gosta é de estar em livrarias. Todas aquelas estantes, cheias de palavrinhas. Acha bonito. Fica em silêncio, enche os braços, como se estivesse a carregar relíquia. Nunca gostou que rabiscassem os livros. Os seus, guarda-os um a um na estante com a discreta anotação de seu nome (para que não se esqueça de que é seu e, talvez, de que aquele é seu nome), a estação, o ano e o local em que os encontrou. Mais que isso, ela não gosta.
Quando se apaixonou, Amaranta se esqueceu de ir à livraria. Perdeu a hora, faltou, não foi, deslembrou. Vez ou outra, visitava a estante para esconder flores dentro dos livros - sabia que seriam úteis (tem álgebra na delicadeza de Amaranta). Marcaram de se reencontrar quando ela desapaixonasse. E assim foi. Amaranta, a sem paixão, voltou à livraria. Carregava agora, como um cachecol de lã pesada, uma dor. Escolhiam seus livros, as duas, e liam juntas em casa.
A dor era quietinha. Falava pouco, como Amaranta antes da paixão. Era bom. As duas, juntas, viviam a tentar fazer dormir cada palavra. Escreviam, depois de ler, textos no diminutivo, que deixavam toda caligrafia infantil. Quietinhas, as duas, desfilando seus vestidos escuros, seu gosto pelo preto-cinza-branco.
Foi então que fez verão. A dor já esquentava demais o pescoço de Amaranta, fazia suar seus ombros. Ela não gostava. A dor só lhe servia em dias de livraria com café e estantes separadas pelo vento do ar-condicionado. Fora de lá, era ruim. E começaram a discutir. Amaranta queria, pois, que a dor procurasse outros ombros, os que não estivessem em verão. Vestia até lilás brilhante para descombinar a dor, para avisá-la que já não era mais bem-vinda. E ria alto nos cafés e ia para as festas vestindo sapatos verdes de verniz e cantava enquanto tomava banho e já não ficava tão sozinha porque tinha amigos que gostavam de filme-preto-e-branco e de brincar de girar girar girar girar... e a dor deu para gritar também. Competiam. Amaranta e sua dor disputavam a atenção do mundo, com gargalhadas que terminavam quase sempre em lágrimas.
Amaranta, assim tão sem saída, acordou quietinha de madrugada. Fez-se de descabida e, na ponta dos pés, andou até o corredor. Acendeu um cigarro, cuidando para que nem mesmo o isqueiro pudesse acordar a dor. Voltou para o quarto e a encontrou nos lençóis. Enrolando os dedos em mechas de cabelo, foi, mais uma vez, à sala. Sorriu com o canto da boca, com um certo prazer de quem se descobre linda. Atravessou o vão de si mesma e, de volta ao quarto, apertou o travesseiro, a princípio de leve, contra o rosto da dor. Minutos depois, já era forte. Suas unhas vermelhas afundavam no travesseiro e, do outro lado, a dor gritava cada vez menos. Até o silêncio. Amaranta, agora, sorria no sofá e, apesar de linda, não podia disfarçar a solidão.

05 April 2007

de lá

paul klee

Tenho todos os desejos e um coração que ora cabe num haicai ora numa epopéia.
Todo dia eu sou muito.
Se uma nuvem me começa, viro delírio.
Gosto de adivinhar nuvens. Fico nelas um dia inteirinho.
Acho bonito grama esmeralda e prédio comprido com espelho grande que reflete nuvem.
Um céu também me começa. Pra não pegar delírio, tem hora eu ando de cabeça baixa.
Outro dia, descobri vocação pra flor. De manhã, eu era copo-de-leite e, à tarde, girassol. Uma abelha se apaixonou. Foi bonito.
Gosto de mudar o nome das coisas e de ser todas elas.
Tenho um amigo que domina um leão e uma amiga que deixou o esmalte vermelho do dedo do pé sair sozinho. Quando saiu, ela virou estrela e foi embora.
Prefiro gente que tem coração de pássaro.
Amo bem forte que até dói de bom que é.
O que eu mais gostei de fazer na vida foi pisar em ovos de madrugada.
Pra mim, mais lindo no mundo é poesia.
Não faz muito tempo, eu entrei em estado de fada.