Saudade de o pai me emprestando os braços na rodoviária, de a mãe à porta com o rosto marcado de edredom, tão manhã. Saudade de eu-oito-anos, de o Thiago com o gato cinza-branco pra mim, de o Jean estourando a caneta outra vez no lençol de estampa azul que era desde a casa da avó. Saudade de aquele bilhete escrito para Juliana, de a noite levar Mariana no carro, ela cantando "te avisei que a cidade era um vão". Saudade de o coturno marrom novo em folha, de a Marina ensinar que minha pele branca gosta de vestido vermelho. Saudade de as fotos no álbum da terceira gaveta, de o armário de doces, de o pai abrir a lata de leite condensado só minha, de o som que a vida fazia quando nem passava.
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A mãe disse: "Não vejo a hora de você aqui". Eu pensei: "Não vejo a hora de eu aqui". Eu devo estar na casa de alguém. Devo estar fazendo pose com as mãos em fundo colorido. Devo estar rindo bem alto vestindo óculos de grau roubados e calçados de outro tamanho. Devo estar com o cabelo solto. Devo não ter telefone porque ninguém precisa me achar. Devo estar lá.
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My Funny Valentine é a música mais cheia de ontem. Combina com duas da manhã e eu deitada no chão de madeira. É bom quando a lágrima vai até o pescoço. E fico com os olhos verdes dela. Mas sem triste. É só de fazer saudade.
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Na televisão, o homem sério disse: "Foi decretado estado de atenção em São Paulo". Eu pensei devia ser: "Foi decretado estado de desatenção em São Paulo". Ia ser tudo a gente sentindo, feito janeiro.
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Tem dia eu queria ter essa idade aqui. Tem dia não. Eu gosto de o tempo de eu criança. Eu gosto de o gato cinza-branco sem nome de pompa. É só Fifi. Tem dia eu sou de manhã, o pai trazendo o copo de leite morninho, eu enrolando o dedo num pedaço de cabelo de gostoso que dá.
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Líquida devia ser só feminino. Assim escorrendo. Nome de mulher, nem mais menina. É eu lua alta. Quando a gente fica à noite, é líquida.
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Você me devolve amanhã cedinho?

Desde aquele dia, eu me mudei para uma sala de espera. Não que tenha sido voluntário: sem mais nem menos, eu moro aqui. Estou esperando alguém para entregar um bilhetinho feito namorasse. O bom é que tem esses livros todos e eu posso escrever o quanto quiser e, às vezes, até esquecer que estou esperando. Posso enfeitar tudo para a chegada: cinco nuvens no alto da parede - nuvens de céu azul-doído -, aquela poesia no teto - "what if suddenly nothing else moves?" - e outras duas novas para a parede lateral.
É raro, mas eu saio. Visito uma exposição, vou ao cinema e anoto aquele vídeo-arte, a fala do Woody Allen que eu mais gosto ("Não engordo porque minha ansiedade chega a ser aeróbica") pra te contar depois. Não deixa de ser enfeitar-tudo, não? É um hábito, eu sei. Ajuda a passar o tempo enquanto se espera - é deslembrar que estou esperando.
E tem amigos que vêm me visitar. Não muitos, porque eu quase prefiro ficar em silêncio com os discos novos de jazz. Mas, vez ou outra, eu tenho saudade e penso em reunir todo mundo aqui. Não seria uma espera, eu sei, e é bem por isso que eu não faço reuniões. Não, não faço. Um amigo ou outro aparece, sorri com as nuvens, tenta ler a letra do teto e vai embora três músicas depois. Eu gosto deles, mas sempre fui das reticências e, embora fique cheia de gargalhadas, eu ainda lembro que estou esperando e é melhor deixar a visita ir antes que ela perceba tudo e saiba que aquilo, aquele jazz lindo tocando, aquela poesia, aquele amontoado de delicadezas não são pra ela. Mas os amigos vêm. E eu gosto que venham. Contanto que batam na porta antes e não se demorem demais.
Minha sala de espera não tem música de elevador. Eu odeio elevadores. E odeio azulejos com estampas de flores e bules, cortinas com aqueles babados e toda tentativa de chamar casa o que eu sei que não é. Detesto que diminuam o volume do som, porque eu não quero ouvir o barulho da espera, barulho da rua que anda mais do que aqui dentro. E, embora eu espere, eu estou um pouco correndo. Sim, porque encher tudo de enfeites não é fácil e eu não quero esquecer de nada. Até aquela história de estudar música no conservatório quando eu tinha 8 eu quero ter pra te mostrar. Não, não se pode esquecer a neblina.
Tem dia eu penso que espero menos a chegada que a hora de escrever o bilhetinho. É que eu tenho ânsia de poder te escrever lindo, você virando a cabeça pra mim, com os olhos brilhantes do encontro, contar a fala do Woody Allen, colocar meu disco novo de jazz no som e entender que está tudo calmo, que você chegou e que já pode trazer todos os seus enfeites pra minha sala de não esperar nunca mais.
Do encontro:
- Daí você apareceu.

Do fim:
- Mas eu também acreditava...

dia de sentir-tudo: amarrei meu silêncio numa árvore.
a moça loira-ruiva de olhos azuis ligou com voz de açúcar. era só pra saber se eu estava bem, porque ela também sente o que eu sinto que é essa saudade tão.
é bom quando se preocupam com a gente exatamente quando a gente quer que se preocupem com a gente.
deve ser o álcool essa bagunça toda.
eu prefiro filme-preto-e-branco.
do sonho da noite, eu gostei: tinha uma tv no meu quarto, virada para mim. mas só mostrava flores. eram gérberas-cor-de-laranja.
não consigo mais disfarçar meu gosto por hífens.
tenho pensado mais do que deveria em verbos no passado. tudo começa em mim com "era uma bonita vez".
é tudo líquido em dia de sentir-tudo, feito a gente estivesse nadando.
tenho vocação para repetir. uma vez, um amigo disse que um conceito de insanidade é fazer-sempre-as-mesmas-coisas-esperando-resultados-diferentes. eu li re-pe-tir.
em filme-preto-e-branco, eu acho bonito quando o homem tira a diva para dançar. (toda mulher em filme-preto-e-branco é diva.) ela gira lá de cima da nuvenzinha.
o moço de olho cinza disse: "você estava linda de preto ontem". "era vestido novo", eu respondi. e fiquei na ponta do pé.
é gostoso quando a gente pode apoiar o queixo nas mãos, bem menininha no meio do filme-preto-e-branco.
de repente, me deu outra saudade.
é tudo líquido, feito a gente estivesse nadando.
Enquanto eu uivava na sala - sim, eu uivava feito um lobo -, de dor e de medo, medo antigo, de nove meses à espera do parto, ele empurrava os móveis da porta do quarto. Arrastava-os com o corpo, afastava-os do caminho, para tê-los distantes, para ver livre o corredor que conduzia à porta de entrada. No caso, de saída.
Talvez quisesse fugir porque meus gritos, a respiração contada... ou porque tivesse se posto zangado desde o dia dos jacintos. Ele não queria que eu os trocasse. Ergueu as mãos - altas, dedos compridos - quando adentrei o quarto oferecendo-me para trazer novos jacintos. Sim, porque aqueles já se punham a cheirar mal. Como se um velório estivesse a cruzar o quarto a qualquer instante em que fosse aberta a porta. Embora eu soubesse que a ele agradavam mais os de outra cor, a mim, quando da oferta de nova compra, pouco importavam as folhas já secas e aquele amarelo antigo de já morto. Não, não. Era só o velório cruzando o quarto que me enjoava e que, não fossem os móveis do lado de fora da porta, teria atravessado a sala onde agora eu uivava.
Ele, então, arrastava os armários, buscava a porta do outro lado dos jacintos. E não tinha de que reclamar, não podia maldizer o labirinto: fora dele a intenção de remover meus móveis - os que eu chamava de "bens de família" - de dentro dos dois quartos, separados por banheiro e sala, para o corredor. Quando veio, arrastou tudo. Mudo. "O que se chama amor é um exílio. Como um cartão-postal da terra natal vez ou outra." Em silêncio, ele virou o sofá contra a parede, deixou apenas o console, ao lado da lareira, onde morriam agora os jacintos.
Os jacintos, aliás, esses sim, ele havia pedido. Como o refratário, que usava para as necessidades do corpo e que eu, atravessando os móveis do corredor, já prática do labirinto, conhecida daquela madeira, ia dia após dias ao quarto a fim de recolher e devolver limpo. E, no trajeto, eu quase não mexia o corpo: era como se os móveis desviassem meus quadris para que eu chegasse ao quarto, de onde agora, ele tentava sair. Ele, sem prática, sem curvas para falar à madeira - talvez porque nunca tivesse antes cruzado o corredor da casa.
Eu gritava, gemia alto, a respiração medida, de nove meses calculada. E ele, arrastando os móveis, podia ouvir, ora perto, ora longe, meu ganido. Eu também. A conversa dos móveis com o chão, a madeira dos armários que ele arrastava no assoalho, eu podia ouvir. Mesmo que gritasse forte a dor do parto, eu podia ouvir. Ora perto, ora longe, ele avisava a casa que, enquanto eu uivava, ele tentava fugir. Mais alto fossem os gritos, mais forte fosse a dor, eu ainda podia ouvir.
E, mesmo hoje, ouço o arrastar de cadeiras e armários, como um eco desafinado de todo o silêncio que cruzou a casa enquanto ele esteve lá, com seus jacintos cheirando a adeus e o sofá voltado para a parede. Mesmo hoje, ora perto, ora longe, eu posso ouvir. "Teriam sido necessários outros amores. Mas o amor... o amor não se encomenda."
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crédito das citações (entre aspas): Samuel Beckett, na peça "Primeiro Amor".
Meus olhos ficam verdes quando eu choro. Verdes como os da minha mãe. Herdei os olhos dela para chorar. Os do pai, castanhos, para o dia-a-dia. Sendo assim, posso decidir se uso os olhos claros ou escuros. Não que sejam verdes para a tristeza e castanhos para a alegria. Não. Bem longe disso até. Porque felicidade também chora.
Tem dias em que eu perco os olhos. Não ficam verdes nem castanhos. Só da cor do pensamento. O pai diz que é quando a gente vai embora e esquece de levar a gente junto. Então, imagino eu-olhos-verdes acenando para eu-olhos-castanhos, que, do outro lado da rua, já vai. Feito mãe e pai quando ele ia fazer viagem comprida, ela se despedia na garagem, e ele, a mala de couro cinza, voltava mais velho, a mão cheia de chocolate diferente que a gente esperava uma vida pra ganhar.
Por que é que, no meio de tudo, eu volto a ser pequena? Talvez a adulta, olhos castanhos e concentrados, esteja parada do lado de lá, acenando para a pequena, olhos verdes de chorar - choro de medo, não de triste -, que insiste em se enfiar no meio das palavras de todo texto. Se eu contasse a ela, à de olhos verdes, que agora eu queria que só ficasse a outra, de olhos castanhos do pai, esta aqui choraria - de medo de ser sozinha - e as duas teriam os olhos verdes, feito os da mãe. Olhos de chorar.
Tem dia, assim de triste e de medo, que eu queria só os olhos claros dela. O que eu herdei (esqueci de contar) são verdes para chorar com luz acesa - ou luz do dia. Se eu os tivesse claros sempre, talvez assim, o moço tivesse percebido que, enquanto beijava meus ombros, eu chorava no travesseiro. E se fosse um beijo no pôr-do-sol, eu vestiria os olhos verdes, ele notaria e deixaria de beijar porque eu não queria nada aquele beijo.
Herdei os olhos da mãe e os do pai para dias de sentir-tudo. Olhos misturados. A avó dizia que os meus, os meus olhos, eram duas esmeraldinhas na caixinha de jóias de veludo preto. A pedra ficava verde-braveza com aquele fundo. Era bonita, mas o veludo... o veludo era tão mais macio de a gente perder os dedos nele e deixar a esmeraldinha de lado.
Herdei os olhos verdes da minha mãe para chorar. Os do pai, castanhos, para quando os dias seguem. No fim, faço olhos de verde-escuro, daquela cor mais sozinha da caixa de lápis.
É verde-saudade.
Sentada aqui, de frente para as nuvens, eu espero enquanto leio o texto que me entregaram na entrada. No alto da página, o título "urgência do sublime". A mulher - alta, cabelos ruivos e olhos azuis - vem à porta repetindo: "audrey? audrey?" Eu faço um sinal com a cabeça. "Estava olhando as nuvens." Ela comenta que aquela é a melhor hora do dia para olhar as nuvens. "Pena que estão descolando." Eu concordo: "É. Deve ser a garoa".
Do lado de dentro, ela me mostra um vídeo. "What if suddenly nothing else moves?" As páginas passam rápidas pela tela. "São 240 'what', 178 'if'...", ela explica. Descemos por uma escada. Lá embaixo, estrelas. De perto, são todas brancas e circulares. "Seguimos a nomenclatura da Nasa." Eu leio: "Alpheratz".
Passamos por outra porta. "Você aceita água ou café?" Seguro um copo d'água com as duas mãos. "Quer dizer que é a poética da matemática?" Ela, os dedos na alça da xícara, sorri. "Isso, isso." Devolvo o copo a ela. Em troca, recebo cinco das nuvens que olhava quando cheguei. Ela as coloca ao lado de um vaso de copos-de-leite para, então, trocarmos um abraço. "Eu tenho medo de amassar tudo." Ela sorri. Guardo a "urgência do sublime" na bolsa. Já posso carregar as cinco nuvens nas mãos.
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som: gotan project vs yann tiersen.