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hoje o coração escorreu pelo chão da sala, no ritmo do bolero. o silêncio entrou quebrando tudo e rasgou as cortinas. a saudade ficou derramada em frente à porta e é como se fosse preciso um barco para chegar do lado de lá sem se molhar.
estar molhado de saudade esfria os ossos.
Ela quase te chamou pra sair hoje. Foi por pouco. Depois lembrou que não gosta do jeito que você fica calado, os dois olhos boiando no rosto. Pensou que, outra vez, acabaria por falar a noite toda, intercalando cigarros, cervejas e faceirices pra você se derreter todo e ela, em seguida, cansar daquilo tudo, porque não vai entrar para um clube que a aceite como sócia. Mas foi por pouco. Talvez porque ela goste de saber que pode não gostar de você. O difícil é que, no dia seguinte, vem a culpa. Ela pediria desculpas - e seria doce nisso - e você não entenderia nada, porque os homens não entendem que mulheres doces dizem não com açúcar. Como quem serve café amargo na xícara mais bonita, como quem dá um tapa na cara às gargalhadas, como quem asfixia com o travesseiro de penas tão branquinhas e macias.
Ela quase pensou que poderia dar certo. Você, encantado, pularia nas costas dela, rasgaria seu pescoço com um elogio. Sairia cedo e voltaria com uma gérbera, porque você bem sabe que ela merece uma gérbera vermelha, sangrando, logo de manhã. Você compraria queijo branco, torradas com requeijão, suco de mamão com laranja. E enfiaria a gérbera sangrando num copo da bandeja. Mas o seu sorriso chato, o seu sorriso sem mistério, você aberto assim, tão fácil, tão trânsito livre... Não, ela não quer o seu café da manhã com flores. Porque ela não mentiria e diria não com doçura e você ia pensar que era sim, que ela te queria, e ia ser tudo um grande engano. E ela não gosta de enganos.
Foi por pouco que ela não te chamou pra sair hoje. Foi porque você sorri na hora, porque combina bem a camiseta branca com a mochila e a postura pouco séria. Porque você tem aquela barba fechada, bonita, o humor ácido. Foi porque você sabe que ela merece uma gérbera sangrando. Mas não sabe que ela queria que você fingisse não saber.
* a versão com foto - porque eu gosto de foto: www.fotolog.terra.com.br/elanajanela
mana, maninha querida,
cheguei de volta do rio de janeiro ontem à noite, depois de um vôo ensolarado e azul de céu-mar. estava quente o avião e saí de lá com a pressão arterial baixa, pálida.
no rio, visitei o cristo-redentor-braços-abertos-sobre-a-guanabara, a lapa, a sapucaí, os ensaios da grande rio e da unidos da tijuca. fiz amigos com menos de 10 nas quadras, com os quais gastei (e renovei) meu repertório de caretas. dez dias em copacabana, ao todo, me fizeram perceber que o samba é caso para um ou duas noites só. desde sempre, eu era do rock. é o que eu canto no chuveiro quando me sinto feliz - "the funny thing is what happened to her nose!". ver a sapucaí, enfim, foi uma experiência excitante. menos do que eu esperava, é fato. acho que é porque dizem que é o maior espetáculo popular da terra. eu sou dessas que acreditam.
voltei lambuzando a casa com beatles, sujando as paredes com stones, enchendo os cantos com syd. senti saudade dos outros sons, lá do meu quarto em londrina: arnaldo antunes - eu fica fora de mim -, pixies, radiohead, itamar assumpção - nego dito, cascavé -, arrigo - diversões eletrônicas! senti saudade dos ombros chacoalhando com violência de um lado para o outro, exorcismo sem tambor.
eu sempre fico confusa quando saio de são paulo, porque, automaticamente, meu cérebro entende que estou fora de casa, sendo a casa londrina - porque é assim que eu me refiro quando viajo pra londrina, ó: "vou para casa". fora de sp, me pego pensando no quarto errado: o das poesias na parede é londrina! são paulo é dos beatles e do quarto novo com janela! é como acordar e achar que é dia a noite.
bem, quanto a sp, voltei a programar o despertador para às 7h30 (não que no rio eu pudesse dormir muito além das 7h30), remarcar para às 8h, mudar para às 8h30 e, em seguida, para às 8h50. voltei a correr pela casa, a toalha enrolada na cabeça por ter demorado demais no banho. como é bom água quentinha escorrendo nas costas!
ah, sim, e ouvi seu cd ontem. tem o chico cantando lola e arrancando páginas dentro de mim.
senti saudade de ser aberta.
carinho.
Por bem menos, eu era feliz.
O moço ao lado derrubou a mochila. Pediu desculpas.
Eu gosto de pedir desculpas.
Sonhei que alguém já tinha pensado o que eu escrevi. Era escuro lá dentro.
É estranho não digitar uma história.
Todo mundo no cinema tem barba e óculos de aro grosso.
O moço da mochila desenha num caderno grande. Eu gosto do som da mão dele passando pela página.
Todo mundo no cinema veste meias pretas.
Deve ser a chuva essa gente toda.
Eu gosto do cheiro aqui.
Ontem me disseram que eu estava vestida de menina-na-hora-do-almoço. Eu vi os hífens no ar.
Espiei. O moço da mochila desenha o casal em frente: senhora, uns 52, cabelo loiro cacheado de permanente, lê a programação do Sesc com etiquetas coladas nas solas das sandálias; o velho, uns 55, uma bengala, não veste meias com o sapato de couro.
Ele, o moço, fala que Cassavetes é foda.
Eu não gosto daquele cartaz humilde de Central do Brasil.
Todo mundo no cinema é poser.
Já sei: tem um compartimento secreto antes da bilheteria e, lá, eles ganham meias pretas, all star de couro branco novinho em folha, camisetas listradas, falsas barbas e óculos. Os de aro grosso.
Eu devia ter passado lá. Ganharia barba?
O moço da mochila desenha o gay fumante.
Deve ser a chuva essa gente toda.
Eu devia fazer isso mais vezes. Isso de cinema e bloquinho.
Fico na dúvida se fazemos as coisas pelo próprio prazer ou para mostrar que sentimos prazer aos outros na fila do cinema.
Se estiver chovendo na saída, eu pego um táxi?
Um velhinho, terno cinza, procura uma poltrona. Eu torço pra ele ficar perto de mim e puxar conversa. “Mocinha”, ele diria.
Eu menti na primeira frase.
Por bem menos, eu era feliz.
O moço ao lado derrubou a mochila. Pediu desculpas.
Eu gosto de pedir desculpas.
Sonhei que alguém já tinha pensado o que eu escrevi. Era escuro lá dentro.
É estranho não digitar uma história.
Todo mundo no cinema tem barba e óculos de aro grosso.
O moço da mochila desenha num caderno grande. Eu gosto do som da mão dele passando pela página.
Todo mundo no cinema veste meias pretas.
Deve ser a chuva essa gente toda.
Eu gosto do cheiro aqui.
Ontem me disseram que eu estava vestida de menina-na-hora-do-almoço. Eu vi os hífens no ar.
Espiei. O moço da mochila desenha o casal em frente: senhora, uns 52, cabelo loiro cacheado de permanente, lê a programação do Sesc com etiquetas coladas nas solas das sandálias; o velho, uns 55, uma bengala, não veste meias com o sapato de couro.
Ele, o moço, fala que Cassavetes é foda.
Eu não gosto daquele cartaz humilde de Central do Brasil.
Todo mundo no cinema é poser.
Já sei: tem um compartimento secreto antes da bilheteria e, lá, eles ganham meias pretas, all star de couro branco novinho em folha, camisetas listradas, falsas barbas e óculos. Os de aro grosso.
Eu devia ter passado lá. Ganharia barba?
O moço da mochila desenha o gay fumante.
Deve ser a chuva essa gente toda.
Eu devia fazer isso mais vezes. Isso de cinema e bloquinho.
Fico na dúvida se fazemos as coisas pelo próprio prazer ou para mostrar que sentimos prazer aos outros na fila do cinema.
Se estiver chovendo na saída, eu pego um táxi?
Um velhinho, terno cinza, procura uma poltrona. Eu torço pra ele ficar perto de mim e puxar conversa. “Mocinha”, ele diria.
Eu menti na primeira frase.
Enumerar defeito é o escrache da insegurança. Antecipar a poesia no feio, a delícia no erro, fazer da tolice um regalo, diria o poeta, mas de forma voluntária, premeditada. Nada mais fácil que anunciar, antes que seja descoberto, o ridículo seu. É cavar na besteira a bestice, o charme nas mãos distraídas coladas nas pontas dos braços. Exibir lindamente os dentes sujos pelas seguidas espigas de milho antes que alguém os perceba, sem graça no meio de um sorriso que se pretende sedutor.
Uma noite basta a ela, Júlia, para que se encontre perdidamente apaixonada por si mesma, e, em especial, pelos seus defeitos anunciados, vestidos de distração concentrada. Seduzindo com a fantasia que criou de si mesma, ela derrama encanto quando derruba os copos, desajeitada, sobre a mesa. Ela é sua melhor paródia.
No entanto, serve menos que uma janela, talvez um espelho, para que Júlia perceba sua ansiedade em não emprestar ao mundo o que tem de real, a maneira apaixonante como limpa os pés sujos com as mãos antes de calçar as meias. Ela se dá conta de que exibe – ela, que se pensa tão especial e mágica – o que tem de melhor atuando em três horas, mas jamais – jamais – alguém saberá a maneira apaixonante como ela limpa os pés sujos com as mãos antes de calçar as meias.
*pelo diálogo mais lindo.
*para as duas, na janela.