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23 July 2008

les amants

miguel angel rios
antes de dormir, escolher músicas para um baile.
:que baile?
:ainda não inventei o onde, mas é um baile.
você usará os sapatos guardados para as festas de formatura. eu terei um lenço que fará do ombro sua pista. as músicas do baile de não-sei serão as de dois pra lá, dois pra cá. as de a sua mão na cintura e os seus dentes acenando que, como os quadris, não foram feitos para bailes. (eu gosto de você não saber nada no baile.)
:baile é de ser encontrado por sapatos.
:seus dentes terão sapatos novos no baile. você vai sorrir uma dança inteira.
:meus brincos e meu lenço terão sapatos também.
:não terá tempo e cansaremos juntos do baile. deixaremos os pés na porta para subir na nuvem.
:o onde do baile é no eu.
:somos só nós dois pra lá, dois pra cá.
:girar.


15 July 2008

solzinho

"cheio, vazio" (1993), leonilson

viver é só.
é um não sei de gastura no olho.

*

o pai começou a carta assim: "estou velho". juntou no envelope duas fotos de ele na colheita de milho. chapéu e camisa linda-linda de suor escorrido.
o pai desenha o sol nas camisas.
outro dia, de sentado, o sol nasceu nas costas do xadrezinho de algodão. era um sol se pondo no pai.
o chapéu é de justinho na cabeça porque, não, na cabeça não pode desenho de sol. é que dói e o pai acorda cedo de dar bom dia ao milharal: o pai não pode doer. nemnunca. o pai de "estou velho" acorda o sol.

*


eu escondi o pensamentinho de a mãe à noite. escondi na fronha. o pensamentinho ganha uma lágrima por dia.
eu teci um riozinho no pensamento de a mãe. ela nada no meu olho.

*

tem outro pensamentinho escondido que é o de ela, a moça vestida de saudade bem floridinha.
nem não pode pensar muito que é de silêncio no susto. nem não pode dar lágrima ao pensamentinho de ela.
é penso de riacho.

*


viver é só.
é um não sei de gastura no olho.



30 June 2008

para catarina

enamorados - laura belém

oh, sweet nuthin', por que é que inventamos tudo?




12 June 2008

de antes (2007)

chagall

pensei assim: eu era floco de algodão, mas não de voar. eu era floco de algodão arrumadinho. você vinha, bagunçava tudo. daí eu era floco de voar. uma manhãzinha.

*

tinha um você no meu olho antes de dormir. demorou de ir embora. quando acordei, era porque fez rir o olho. foram três copos de água, banho quente, café na padaria e óculos de sol. mas você nem foi embora.

*


a amiga de unha vermelha disse que tinha brilho no meu olho. ela viu você deitado lá. eu gosto de saber que ela sabe. e que vai me dar a mão quando você levantar do meu olho e doer. ela sabe que meu olho vai fazer saudade.

*


tem dia dói. tem dia passa.

*


o que eu achei bem lindo foi você desenhando no ar. a mão separava um ventinho aqui, jogava um espaço vazio ali, rabiscava nada com o dedo e era um desenho. eu vi.

*


tem dia dá medo de nem começar. mas eu mostrei "coração - isto é, estes pormenores todos". emprestei um pormenor meu pra você. será que quando a gente empresta a outra pessoa pode nem não levar pra casa? eu queria que você me levasse um tantinho. a minha miudeza.

*


e se eu deitar no olho com você?


***


foi há um ano. agora, é de já nem não doer.
tem dia eu vou, tem dia eu te beijo.


29 May 2008

dizer

"cenas de um casamento", de bergman

Foi uma tarde em que todos diziam: o amor, o amor, amor. Foi uma tarde de eu-abrigo. A moça branca de olhos azuis ligou e sentou-se no café para dizer; eu corri pela rua com a gérbera amarela para dizer; a de cabelos crespos estava apavorada e, há dias, fazia só dizer; o homem de passarinhos sentou ao meu lado esticando os braços sobre meu ombro para, aos meus olhos, dizer.

*

Ela esperava as flores de antes na estréia. Ele não apareceu. Na noite de estréia. Um segundo antes da cena, ela esperava. Os olhos azuis e a pele branca, chorou quando estava terminado o espetáculo. Ela nunca ficou sem as flores em noites de estréia. "Nunca, nunca", ela, chorando.
Comprou um apartamento, tentou desmanchar o cachecol, pensou não ser mais nada e o carro, ah, o carro. Ela não olhou o farol. Ele a esperava do outro lado, pálido. "E se...", ele. E ela: "Eu disse não". E, então, não ganhou mais as flores em noites de estréia e precisa, agora, sentar-se nos cafés para, sozinha, dizer.

*

Eu entreguei a gérbera amarela. Não havia razão para embrulho. Beleza era de não repetir, de só a gérbera. Corri a rua e, no café, ficou a flor. Era doído de saber que o amor, o amor, o amor. Ela chorava. Eu, só quando contei das malas. Até a porta, as malas. "Era ter que dizer adeus ao contrário, entende?" Ela chorava. "Sim, era de ir embora para dentro." Ela chorava mais e dizia para eu não deixar o amor. "Você não", ela. Eu expliquei que não deixava, que, no "e se..." dele, eu respondia que sim. Mesmo sem esperar as flores em noites de estréia.
Antes de levantar, era o caso de lembrar "o amor não se encomenda". Ela sorriu, desceu a rua. E eu lhe comprei lenços de papel. "Para os amores que nunca secam." Minha reverência à moça branca que dói.

*

A de cabelos crespos deu de ansiedade desde a primeira carta virtual. Teme não ser o sonho. E não será, eu explico - e ela sempre pergunta. Deu de ânsias.
Não, não será o sonho porque o amor, o amor, o amor.
É de repetir os olhos.

*

O homem de passarinhos arejou as roupas dela todos os dias. Os vestidos e os cabides em passeios pelo quintal de manhã. Ele a esperava. (O ar era sua reverência)
Talvez ela não quisesse mais aqueles vestidos. Não voltou.
No ano passado, ele vendeu a geladeira que ela deixou. Não ficou mais nada para os cabides.
"Sem vestígios do amor", ele disse.
É um homem de vento.

*

Desenhei mais duas flores, porque eu não podia mais dizer. Em breve, serão dez desenhos. Eu dei o nome de silêncios.

26 May 2008

repetir

leonilson

Às aflições sem nome, ao que eu não soube dizer ontem à noite, às franjas do tapete que deram nó na máquina de lavar, toda a solidão de linguagem. Minha ilha de mim. Ontem, eu precisei desenhar flores até doerem de muito os dedos, doerem de repetir até que cada flor fosse outra. Repetir a dor até que fosse outra. Para doerem dedos - ao menos saber dizer que a dor é nos dedos. Para significar as franjas do tapetes e saber dizer que, não, não houve quem estendesse os grampos e, então, foi bom sentir a ilha toda minha. Mas o conforto também dói. Como um alívio. É assim, eu te explicaria: encontrar abrigo de chuva, embora seja boa a chuva e o não ter abrigo.
"Nada pode o olvido, contra o sem sentido apelo do não", eu lembro desde os 11 anos. Eu lembro de isso escrito atrás da porta e lembro de gritar, de dentro da minha ilha, na esperança de que alguém pudesse dar resposta: "Esquecer o quê? O quê? Qual é o nome do que eu esqueci?" Mas há o apelo do não.
De manhã, havia apenas um feixe de sol na calçada e eu o deixei de presente às costas. Chegou a doer, pensei desmanchar o cachecol, mas fiz força para o não. Para sentir, como se pode sentir nos dedos a dor de muito do desenho das flores. Eu estava repetindo o sol. Pensei então que, de repetir meu grito, talvez alguém responda para dentro da minha ilha o que eu esqueci. O apelo do não, as franjas do tapete que deram nó na máquina, as coisas sem nome, tudo iria habitar um feixe de luz e poderia doer pelo que tem de claro, como os dedos depois dos desenhos.



22 May 2008

horizontal

schiele

Eu queria que fosse de aprender. Então, você me estendia a mão, lá do meu olho, que é onde você mora, e a gente deitava junto, de ver o mundo na horizontal dos apaixonados. Você me ensinava que é de rir, só de rir, que o de chorar é quando a paixão fica forte e dói até no olho, mas que é dor de prazer, de feliz. Você me ensinava tudo, porque você já é aprendido mais de amor, da horizontal dos apaixonados. Eu deitei só um pouquinho e foi sempre do seu lado. Eu sou de aprender ainda. Você já deixa a cama prontinha nos olhinhos da gente.

*

Daí eu sentei no colchão e fiquei te olhando. Você abria a boca - devia ser de bonito o sonho - e quase era uma conversinha no meio do sono. Fazia uma preguiça longuinha e puxava o edredom para o lado, guardando todo o calor só pra você, dentro do seu abraço. Eu ficava de espiar, sentada no colchão. Você, dormindo, era bem meu. Daí você abriu o olho, engoliu saliva e disse, rapidinho-rasteirinho, eu-te-amo-linda-linda. Eu pensei: sonhou-eu, sonhou-eu! A gente gosta de ser um sonho no nada do apaixonado que dorme.
*

Quando deita no olho, é de não dar mais sono, o amormeu.



06 May 2008

de antes

leila reinert
no casulo
e, trinta anos depois, ela é encontrada.
reencontrada.
os cachos presos aos pés.
ela não conseguiu sair de si mesma.

*


morreu tanto que sumiu
o amor?
eu não vi.
você viu?

*


de 26 de agosto de 2007. de antes.


29 April 2008

destinatário

eliana bordin - sem título (2007)

quando ela acordou, ele já estava lá, enrolado no lençol de algodão branco. como espiasse de longe, ela descalçou os sapatos ainda na porta e deslizou para dentro. em silêncio. ele se virou. coçou o nariz. ela estava na ponta da cama. era como se nunca tivesse entrado naquele quarto antes. tirou uma a uma as pétalas que enfeitavam o cabelo e deixou-as sobre o móvel branco. em silêncio. não se pode acordar o destinatário das poesias. arrancou, enfim, a última das 18 pétalas. eram de uma gérbera que ela havia deixado no cabelo, parece, há alguns meses. apesar do tempo, eram ainda de vermelho-grito.
soltou o cabelo, porque, pensou, já não precisava do penteado. olhou o corpo enrolado no lençol. examinou e sussurou para si mesma: destinatário, destinatário. então, como desatinasse, voltou a enfiar no cabelo cada pétala. arrematou com grampos, refez o penteado. desembrulhou duas borboletas azuis dos bolsos, colou quatro nuvens na parede, rodopiou até a vertigem de um apaixonado e, quando parou, ele ainda estava lá.




17 April 2008

confortável

brigida baltar

Dos meus inventos, eu sou o que mais veste enfeites. Talvez por não ter conseguido me vencer. De menina, inventei que eu não podia tirar menos de 9. Não por nada, se não para ter mais uma invenção minha com que brincar. E nunca tirei menos de 9. Ganhei meu jogo. Não seria um tipo de morte? Como o desejo, que, em si, tem seu fim? Eu me ganhei nisso. Entramos num acordo, eu e meu invento, de que estava feito. Mais tarde, de já crescida, novo brinquedo: o de matar o amor. Era assim: a gente inventava que ele existia, botava flor, enfeite, vestido de fada, apostava corrida com outro amor, rodopiava de vento e esvaziava a história. De tudo, a gente guardava a flor, o tulezinho do saiote e a corrida que ninguém apostou. A mágica estava nisso. Ninguém apostou, não houve corrida. Era apenas em sonho e, por isso, mais precioso, feito duas flores feitas de crochê guardadas em um vidrinho com fios cintilantes. Inútil, amém.
E de tanto inventar, desfiei um vestido todo de não saber o que é. Há ainda o vestido? Ou já existe apenas o desejo de um vestido, que, em si, morrerá tulezinho entrando na máquina de costura? A verdade do vestido não está em quando a gente imagina o tulezinho virando vestido? Porque depois ele já não é.
Dos meus inventos, a aflição de viver é o que nunca vestiu nada. Não coube vestido nela, porque quis todos os vestidos. De criança, eu inventei um clube que era de reunir todo mundo que doía. E toda a gente do clube podia desenhar na parede, segurar giz de cera, pedir mais papel pra mãe e inventar que a gente toda outra que não era aflita podia ver de longe e enxergar que era tudo lindo lá dentro do clube. Não tinha ninguém, mas eu conversava o dia todo e a parede ficava linda, desenhinho de solidão. De já crescida, eu inventei de novo e, então, ficamos eu e ela, minha amiga, no clube. Ela enchia o chão de tulezinho que era pra sentar em sonho. Eu rabiscava e ela olhava de beleza que era nosso invento. Ficou sendo todo nosso. A gente botou aflição na gente que não doía e matou a anestesia. Dor de prazer, de vida, de todo mundo sangrando de ver o desenhinho de solidão. De manhã, a gente lavava o tulezinho. Era de sair tanto vermelho de sangue! Você deixava lindo, que era para o próximo aflito poder sentar confortavelzinho.
Eu te inventei mais um jogo de lembrar todo invento. Pintava numa carta o coturninho, na outra também. Riscava aquela noite em que eu inventei a rasteira e, mais uma vez, riscava em outra carta. E, assim, você adivinhava o passado dos inventos. Feito quem abre a cortina, mas espia para o lado de trás da janela e vê só a luz entrando na mobília da casa. Era de ver tudo como fosse novo. Espanto, amém. Ainda te fiz um vidro com flor de crochê boiando em fio cintilante. Te vi segurar tudo com uma pinta na palma da mão e o cabelo de árvore escorrendo no rosto. Inventei você num riachinho, te pedi pra ouvir o medo de a mãe não amar mais e enchi cinco copos de água quando você deu de chorar de manhã. E te fiz invento pra não pedir nem nada. Porque era de ver você botar aflição na gente e de eu poder esticar o bloquinho quando ficava pronta mais uma história. E toda história era depois que você tinha inventado os seres: um caranguejo maluco de coração comprido, um gigante de olho que trocava as cores, um moço que encantava violão e sabia fechar portas. Eu era toda sua aflição no bloquinho, de chorar quando você pedia mais papel pra mãe porque, não, por favor, a gente não quer sair daqui.
De agora, de não ter mais idade, eu invento que já vivi. Na vida, eu era mágica e tinha uma amiga que enfeitava o chão de tulezinho para ver aflito escorrendo sangue. A amiga também era mágica e acordava com essa dor de ter inventado todo o resto e até a própria dor. De já não ter mais idade, de agora, ela morava num riacho e eu chorava de ver que era beleza aquilo tudo.
A gente tinha inventado que viveu. Mas o tulezinho no chão, o tulezinho era verdade.